Assis,
30 de julho de 2020.
Queridos
alunos.
Tudo
bem com vocês? E as coisas em que pé estão? Tomando os cuidados possíveis
contra a pandemia? Na última semana, infelizmente, acompanhamos um crescimento
assustador do número de contágios e mortes no Brasil e também na cidade de
Assis. Espero que estejam se comportando de modo a protegerem a si mesmos e aos
outros.
Na
última carta, debatemos sobre a necessidade de se estabelecer uma alimentação
natural, sem o uso de agrotóxicos, para a população. Diante desse problema,
surgiu um outro da maior importância: como cultivar produtos naturais em grande
escala sem o uso de agrotóxicos? É possível?
Sim!
É possível! E ainda sem a demagogia barata, por outro lado ex-tre-ma-men-te
agressiva, tão divulgada por muitas organizações que se dizem defensoras de uma
vida ligada com a natureza. Quero falar com vocês sobre um pesquisador suíço
chamado Ernst Götsch.
Durante
algum tempo de sua vida, ele trabalhou em uma instituição estatal da Suíça
sendo responsável pelo melhoramento genético de plantas. Contudo, uma questão fundamental
que fez sobre essa sua profissão, o fez pensar de maneira diferente.
“Será
que, em vez de ficar buscando o desenvolvimento de plantas mais fortes para
serem expostas com alta produtividade aos grandes maus tratos produzidos pelos
agrotóxicos, nos preocupássemos em criar condições ambientais para que elas se
desenvolvam bem, não seria mais inteligente?”.
Essa
questão, do ponto de vista filosófico, se amparou em um conhecimento que tinha
sobre o filósofo Immanuel Kant. Götsch desenvolveu 15 princípios de conduta e
para divulgação de suas práticas. O decimo terceiro, ele escreve com as
seguintes palavras:
“XIII - Todas as espécies - com a exceção do
ser humano moderno e da maioria dos animais domesticados por ele adotados –
agem baseadas nos princípios do “Imperativo Categórico”, formulado por Immanuel
Kant (1724-1804) que diz: ‘Aja de modo que você gostaria que os princípios
submetidos a suas interações sejam elevados imediatamente a princípios de leis
universais’. (Ou seja, aplicados a você mesmo).”. Ernst Götsch[1]
Desse
modo, procurou utilizar o Imperativo Categórico proposto por Kant, que é a
busca de um comportamento que você quer que os outros tenham para com você e
que esse comportamento seja tão bom que possa ser uma lei justa e para todos.
Simplificando: fazer aos outros aquilo que você gostaria que fosse feito para
você.
Com
a intenção de praticar essa ideia, pediu demissão de seu cargo e arrendou
terras na Suíça e na Alemanha. Começou a aplicar algumas teorias de Agricultura
Ecológica, e assim foi percebendo, a ajuda que as árvores traziam para o solo e
a combinação de plantios de raízes, grãos e verduras.
Em
1979 foi para a Costa Rica. Lá, em um projeto que recebia os refugiados
nicaraguenses da Revolução Sandinista (revolta do povo da Nicarágua contra o
imperialismo norte-americano que se impunha violentamente através do ditador
Somoza), ensinou e desenvolveu métodos de agricultura sustentável.
No
ano de 1982, muda-se para a Bahia, com o objetivo de recuperar 480 hectares de
terra para o cultivo de cacau. A fazenda, que estava completamente desmatada e
transformada em pasto, foi o lugar onde continuou desenvolvendo suas técnicas
de agricultura. Sem o uso de agrotóxicos e que combinam o plantio de floresta e
a existência até de pragas que seriam exterminadas na agricultura convencional.
Em
poucos anos, sua fazenda era a mais produtiva da região, tanto em quantidade
quanto em qualidade. A praga conhecida como “vassoura de bruxa”, que faliu
diversos agricultores de cacau, não destruiu a sua plantação. Na sua concepção,
o aparecimento de uma praga não significa que você deve mata-la com veneno, mas
fazer um manejo diferente para que ela não prejudique o seu trabalho. A fazenda
voltou a ter minas de água, voltaram as chuvas e está praticamente recuperada.
Com
o passar do tempo, Götsch batizou suas técnicas de trabalho de “Agricultura
Sintrópica”. Em termos gerais, é uma forma de produzir alimentos em que não se
perde nenhuma energia criada pela natureza. Para um conhecimento mais
aprofundado, sugiro que visitem o site chamado “Agenda Götsch”.
Hoje,
em parceria com outros agricultores, está se empenhando em aplicar a
Agricultura Sintrópica para produções em grande escala e desenvolvendo
tecnologia para isso. Os resultados já são muito satisfatórios a ponto de
chamar a atenção da sociedade para uma prática mais ampla.
Com
isso, surgem questões que devemos responder para entender quando uma praga
atormenta o planeta. Basta eliminá-la com um produto químico? Ou também temos
que entender as condições sociais e biológicas que possibilitaram o seu
surgimento? Ou as duas coisas?
Saudações
filosóficas.
Prof.
Ulisses.
Áudio do texto disponível em:
https://drive.google.com/file/d/15xZJG1uLEIftNgiIoA3HMs0GNHokprIV/view?usp=sharing
[1] https://agendagotsch.com/pt/syntropic-farming-principles-by-ernst-gotsch/
Acessado em 30 de julho de 2020.

Professor incrível seu texto , muito obrigado pelo partilhar. Avante
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