sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Assis, 21 de agosto de 2020.

 

Platão. Trecho da pintura "A Escola de Atenas" - Rafael Sanzio Fonte: Wikipédia.


Assis, 21 de agosto de 2020.

Queridos alunos.

Vocês estão bem? E as coisas como vão? A realidade é algo muito concreto e duro, principalmente quando estamos lidando com nosso País que conta com mais de 110 mil mortos pela pandemia de COVID-19, mas temos que encarar inevitavelmente essa situação.

Para isso, faço questão de destacar, não se esqueçam de que temos que ter um comportamento único e firme no que diz respeito ao retorno às aulas. Vamos fazer uma campanha aberta de que não retornaremos e nem mandaremos nossos filhos às escolas antes que se faça uma vacinação completa da população.

Voltar pra escola sem vacina, como já temos diversas experiências de outras regiões e países, é praticamente assinar o próprio atestado de óbito. Enquanto não houver vacina, nossas atividades continuarão pela internet mesmo. Simples assim!

Tenho analisado com muita satisfação os elogios e as críticas que muitos de vocês têm feito sobre as nossas cartinhas. Eles são muito bem vindos, pois manifestam a alta capacidade que sempre tiveram de se posicionar diante da realidade e das ideias. Espero que se comuniquem mais e mais comigo.

Há um aspecto das ideias de vocês que tem sido muito repetitivo e, por isso, digno de que nós discutamos mais sobre ele. Em resumo, tenho escutado que as cartas são boas porque faço uma defesa racional e emocional dos conteúdos que são nelas trabalhados. Em diálogo com isso, opino que esse pensamento de vocês é muito acertado e, sobretudo, filosófico. E se é filosófico... cabe um debate! Mania de professor de Filosofia, né? Hehehe.

O filósofo Platão, lá na antiguidade grega, já se preocupou com essa inevitável relação entre razão e emoção no dia a dia das pessoas. Dizia que as almas das pessoas se dividiam em partes: a parte racional, a emocional e a sensitiva.

A sensitiva seria a responsável por alertar nosso corpo para as necessidades físicas de sobrevivência. Frio, dor, fome e apetite sexual são seus principais avisos. A parte emocional é aquela que nos informa para reagir de maneira ativa sobre uma realidade. Um trabalhador ou um soldado tem que ter uma disposição forte de espírito para atuar em seu trabalho. A parte racional é a que decide como atuar de forma mais inteligente em qualquer situação da vida cotidiana. Por isso, Platão afirma que os seres humanos devem serem governados pela razão, colocando a emoção em segundo plano e as sensações em terceiro lugar. Emoções e sentimentos devem ser anulados pela razão.

René Descartes, por sua vez no século XVII, elabora diversos argumentos filosóficos para falar sobre as relações entre razão e emoção. Afirmava que o corpo é o lugar da emoção e o cérebro da razão. No frigir dos ovos, acaba por recuperar tudo o que Platão já havia discutido há mais de 2000 anos. O corpo deve ser suprimido pela razão.

O médico António Damásio, na atualidade, retoma essa questão filosófica em termos mais próximos de uma disciplina chamada neurociência, que estuda o desenvolvimento de nosso cérebro em relação com as razões, as emoções, os sentimentos e o meio social. Seus argumentos ainda são muito debatidos, muitas pessoas concordam e outras discordam dele, mas é importante que nós o conheçamos para poder formular nossas próprias conclusões.

Damásio propõe que não tem como separar razão e emoção. Isso justamente porque o ser humano vive em sociedade e os desenvolvimentos de suas capacidades são em colaboração e não em repressão de uma pela outra. Ele define a diferença entre emoção, sentimento e desenvolvimento cerebral. Vamos às suas ideias.

Segundo as pesquisas de Damásio, a emoção é um arranjo cerebral que prepara o corpo para a ação. Imagine que você está caminhando numa floresta e se depara frente a frente com uma onça. No prazo de aproximadamente meio segundo, seu cérebro desvia toda a circulação sanguínea de seu corpo para os músculos maiores. Vai acelerar o batimento cardíaco para que o sangue chegue mais rapidamente a esses músculos. Assim, faltará circulação sanguínea no intestino, se ele estiver cheio, vai ficar vazio. Você se caga de medo!

Nessa situação sua razão vai ter que tomar uma decisão que, de qualquer jeito, envolverá o movimento dos músculos. Você começa a correr o mais rápido possível ou você encara a onça no braço. A decisão tem que ser rápida pra você ter a chance de escapar e levar em consideração a realidade dura e concreta. Você consegue ganhar de uma onça na briga? Está com algum tipo de arma? Normalmente, por favor meus amores, se ficarem nessa situação tentem correr fazendo a maior gritaria possível.

O sentimento já é diferente da emoção. O sentimento é uma emoção consciente, ou seja, se trata de algo que você tem um controle limitado sobre ele. A emoção não se controla, ela é uma reação de defesa de nosso corpo, e nem toda emoção é um sentimento porque algumas emoções não são conscientes. Ela simplesmente liga o sistema de defesa do organismo e você sente medo sem saber qual o motivo. Isso gera ansiedade, dessa forma, fortunas gastas com remédios e anos e anos de conversas com seu psicólogo.

Você já sentiu aquele frio na barriga quando viu a pessoa amada? Ele é um sentimento, pois se trata de uma emoção consciente despertada pelo contato visual com o foco do seu amor. Seu cérebro diminui a circulação sanguínea do estômago, aumenta o foco de sua atenção, dirige essa circulação de sangue aos músculos com o objetivo de aproximar-se daquilo que ama. Esse frio na barriga é fisicamente uma reação emocional à falta de circulação sanguínea no estômago.

Não caiam na besteira de fazer bobagens e colocar a culpa no desenvolvimento cerebral, porque desenvolvimento cerebral é social e evita a chance de patacoadas. Se vir a pessoa amada não vai agarrando ela e se justificar em relações cerebrais. Isso se chama assédio. Para não haver esses problemas sociais, usem a parte racional do cérebro e dialoguem com as pessoas. Conversando a gente se entende. Ou se desentende?

A parte do cérebro responsável por lidar com as emoções chama-se sistema límbico. É ela que possibilita todas essas coisas que percebemos quando estamos emocionados. A parte que trabalha as razões, nossa capacidade de fazer escolhas, é chamada de neocórtex. Damásio suspeita que essas duas partes se relacionam e se desenvolvem conjuntamente, e por isso, discorda das afirmações de Platão e de Descartes que defendiam a anulação consciente das emoções. Por isso, um dos principais livros de Damásio foi batizado com o nome “O Erro de Descartes”.

E vocês concordam com Platão e Descartes que valorizam a razão e suprimem os sentimentos e emoções? Ou concordam com Damásio que propõe um desenvolvimento conjunto entre razão, emoção e sentimento? Ou conseguem apresentar uma proposta diferente das que debatemos?

Saudações filosóficas.

Prof. Ulisses.


Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1lmmA4L31zRh8Eb6m01HV1IV6JhzvVHAC/view?usp=sharing



sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Assis, 14 de agosto de 2020.

 

                                  Neurônio. Fonte: Brasil Escola/Uol


Assis, 14 de agosto de 2020.

Queridos alunos.

Como vocês estão? Tudo bem por aí? Embora muitas autoridades políticas, que não possuem um conhecimento mínimo sobre saúde estejam se esforçando para a volta das aulas presenciais, e com isso a matança mais generalizada ainda, creio que vamos ficar afastados por mais um longo tempo. Pelo menos até que uma vacina seja aplicada na grande maioria das pessoas. Enquanto isso, ficamos nos defendendo tentando manter a distância mesmo.

Na última carta, conversamos um pouquinho sobre pensamento. Vimos que, em nosso corpo, o grande organizador daquilo que sentimos e pensamos é o cérebro. Foi colocado que se trata de um órgão, socialmente construído e em constantes transformações, afinal, interage diretamente com o meio social em que vive.

Gostaria de propor para vocês, como orientação para nossa conversa de hoje, um estudo introdutório sobre uma parte minúscula e importantíssima do cérebro: o neurônio. Vamos falar sobre suas características físicas e suas funções para o trabalho cerebral.

O neurônio só foi descoberto no ano de 1889, pelo pesquisador espanhol chamado Santiago Ramón y Cajal. Esse médico serviu no exército espanhol em missões repressoras à independência de Cuba na segunda metade do século XIX.

Por ter contraído malária, foi liberado do serviço militar e dedicou-se ao estudo do sistema nervoso. Utilizando uma técnica criada pelo italiano Camilo Golgi, conseguiu provar que o sistema nervoso é formado por bilhões de células isoladas. Essas células foram chamadas de neurônios. Elas se comunicam constantemente entre si através de processos que classificou como sinapses.

As descobertas de Cajal se transformaram em um ponto de partida para toda neurociência moderna. Essa disciplina estuda o funcionamento de nosso sistema nervoso, e como já debatemos, o cérebro é a região que controla todo essa parte do corpo humano... para não dizer todo o corpo humano.

Com o passar dos anos, novas pesquisas e, consequentemente, novas descobertas foram acontecendo. É muito difícil precisar quantos neurônios tem um cérebro humano, mas recentes pesquisas feitas por cientistas brasileiros, estimam que são aproximadamente 86 bilhões.

A ciência compreendeu que os neurônios tem uma forma muito parecida com a de uma pequena árvore. Imagine-os como um bonsai. Aquelas pequeninas árvores desenvolvidas pelos japoneses muito usadas como enfeites naturais em casas.

As informações chegam aos neurônios por meio de substancias químicas. Para simplificar, vou chamá-las de neurotransmissores, mas existem outras. Um neurônio só pode reagir de duas formas ao contato com um neurotransmissor. Ou fica agitado e dispara mais impulsos elétricos; ou fica mais tranquilo e dispara menos impulsos elétricos.

Olha que legal! Os neurônios transformam reações químicas em elétricas! Então, quando estamos mais digamos assim nervosos, é por que nossas relações sociais fizeram com que o cérebro produzisse mais neurotransmissores que agitam os nossos neurônios. Quando nosso time toma um gol ou faz um gol, nossos neurônios ficam mais agitados, ou para a alegria ou para a tristeza. Lembrem da alegria de um gol decisivo que fez seu time campeão ou da desgraça que foi o 7 a 1 para a Alemanha... enfim...

Os neurônios recebem os neurotransmissores pela copa da árvore. O nome científico dela é dendrito. Depois que ele os transforma em impulso elétrico, essa carga é transmitida pela caule da árvore, chamada de axônio. Alguns neurônios tem uma proteção para esse caule, como os fios elétricos são protegidos por pequenas borrachas, esse isolamento é batizado como bainha de mielina.

A bainha de mielina, constituída por 80% de gordura, tem como base os ácidos graxos ômega 3. Por isso, muitos médicos pedem pra gente comer mais peixes e alguns grãos, pois eles são ricos em ácidos graxos ômega 3. Quando vemos a foto de um cérebro, notamos que ele tem partes brancas e partes cinzentas. As partes brancas são formadas por neurônios que tem bainha de mielina, pois como podemos perceber no torresmo do porco, toda gordura é branca. As cinzentas são de neurônios que não tem ou não precisam de bainha de mielina.

Os impulsos elétricos são levados até a raiz da arvore, que os cientistas chamam de botões terminais. Ali são criados mais neurotransmissores e enviados a outros neurônios que repetem o mesmo processo. Tudo isso em fração de menos de um segundo!

Assim, o que faz uma pessoa ficar nervosa ou calma é a sua relação com o seu meio social e outras pessoas. O cérebro, como um órgão maravilhoso em termos de universo, interage com aquilo que a pessoa vive. Uma das primeiras preocupações dos filósofos, que permanece sempre em debate na Filosofia, é o conhecimento de si mesmo.

Vamos lembrar novamente do Sócrates. Conhecer a nós mesmos passa pelo entendimento das nossas vivências, dos nossos desejos, dos nossos medos, das nossas possibilidades e dos nossos limites. Entender onde estamos, a nossa classe social e os nossos objetivos são fundamentais para o autoconhecimento. Como também não podemos deixar de lado a compreensão da fabulosa máquina humana chamada cérebro.

Queria apenas deixar duas questões, para pensarmos juntos, que resumem um pouco esses temas gigantescos para a humanidade. Como melhorar nossas relações sociais para que nosso cérebro se desenvolva bem nesse ambiente bastante atribulado? Vocês teriam algumas sugestões ou outras questões a fazerem?

 

Saudações filosóficas.

 

Prof. Ulisses.


Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1NUnfng9oSBLUTYosn6oP5fvg9nIYtNEG/view?usp=sharing

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Assis, 7 de agosto de 2020.

 

                          O cérebro. Fonte: Pixabay


Assis, 7 de agosto de 2020.

Queridos alunos.

Tudo bem com vocês? Estão se cuidando bem? Como foram as notas do segundo bimestre? E o pessoal do EJA? Conseguiram terminar a série? Espero que as coisas estejam ocorrendo dentro do planejado, se for possível falar de planos dentro da pandemia que não seja a sobrevivência, sempre tão difícil para nós que somos trabalhadores.

Venho dialogando com vocês nos últimos meses por meio das cartas e do Whatsapp. Na maioria das vezes, são sobre temas de Filosofia, das Ciências humanas e do pensamento em geral. Afinal, a capacidade de pensar com lógica de maneira organizada é uma característica muito particular do ser humano enquanto ser social.

Se vocês repararem em todas as nossas aulas, nas cartas anteriores, nessa que está lendo e nas próximas; os temas que debatemos (e estamos debatendo) nos incentivam a pensar. Questões sociais e filosóficas como o preconceito, o amor, o trabalho, a pandemia, a ética e todas as outras, muitas vezes, nos fazem pensar.

E por falar em pensamento, entendendo ele como algo que nasce da relação das pessoas com a sua sobrevivência concreta (o trabalho), queria começar a conversar sobre o órgão humano que organiza as ideias. Ele mesmo... do cérebro!

Antes de qualquer debate sobre a constituição física ou biológica, do cérebro, uma coisa tem que ficar bem compreendida. Trata-se de um órgão do corpo humano. Como qualquer outro, ele foi socialmente formado, ou seja, na relação de nossos antepassados com a sociedade e com a natureza na luta pela sobrevivência.

Nosso cérebro nem sempre foi da forma como é hoje. Pelo mecanismo da seleção natural, ele foi se desenvolvendo nessas relações sociais e biológicas, em que os mais adaptados às situações sociais foram sobrevivendo. Ele vive em constante mudança, de modo a sempre se adaptar ao contexto social em que está inserido. Dessa forma, o cérebro não é uma criação do céu, mas algo que está sempre em movimento de transformação e adaptação ao meio social e natural.

Há um filósofo estadunidense chamado Daniel Dennett. Seus estudos afirmam que nosso cérebro vem se transformando, ao longo da história, justamente pelas ações intencionais que as pessoas tem com o seu ambiente social. Suas necessidades de trabalho e sobrevivência.

Por exemplo, nos dias de hoje, vão sobreviver à pandemia de COVID-19 as pessoas que se preservarem intencionalmente do vírus ou as que tiverem a sorte de se curarem em caso de contágio. Nesses casos, como podem perceber, não é inteligente contar com a sorte...

Contudo, do ponto de vista de uma adaptação do cérebro a médio ou longo prazo nas próximas gerações, Dennett diz que as mais resistentes a esse vírus serão as que nascerem de pessoas que estão se preservando intencionalmente hoje. Ou evitando serem contaminadas pelo vírus, ou as que conseguirem tomar alguma vacina.

Notem que todas as soluções para esse problema social e biológico, que é a pandemia, apenas podem ser resolvidas também socialmente. Criação de remédios, relações sociais sem proximidade física e por aí vai. Podemos fazer uma questão social interessante... Quem tem acesso aos melhores tratamentos contra essa gripe: o pobre ou o rico?

O cérebro é socialmente formado e transformado. Ele organiza nossos pensamentos e nos propicia tanto a fazer Filosofia como a sentirmos as nossas emoções. Nos permite gostar de uma música, de um filme e de qualquer outro tipo de arte. Exatamente agora, possibilita que você entenda ou não entenda, concorde ou discorde dessas informações que está conhecendo

E você acha que o cérebro se modifica intencionalmente? Acha que ele sempre foi do jeito que é? Ou que suas transformações são somente físicas e sem nenhuma relação com o meio social e ambiental? Acha que se trata de um presente do céu?

Saudações filosóficas.

Prof. Ulisses.


Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1Q1TvS1v8u64BLGMXxCkQgNt_elH5ocGh/view?usp=sharing

Assis, 16 de junho de 2021.

                                      Título: Mito da Caverna (2021). Autor: Gabriel Serodio Assis, 16 de junho de 2021. Queridos alunos, Vo...