quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Assis, 3 de dezembro de 2020.


Título: A Persistência da Memória (1931) Autor: Salvador Dali (1904 - 1989). Fonte Wikipédia.


Assis, 2 de dezembro de 2020.

Queridos alunos.

            Tudo bem com vocês? E as coisas como vão? Tudo nos conformes? Estão conseguindo fazer as atividades finais? Espero que estejam concluindo as tarefas escolares, porque é assim, ou a gente acaba com elas ou elas acabam com a gente.

            Essa é a última carta que envio esse ano. Não precisam sentir saudades e nem pedir para eu continuar, pois a partir do ano que vem, continuarei me comunicando por aqui e teremos algumas boas novidades. Já chegam as novidades ruins, não é?

            Na última carta conversamos um pouquinho sobre lógica. Nela fomos debatendo sobre o que é a lógica, pelo menos, do ponto de vista filosófico. Vimos que a lógica é um estudo que garante que um pensamento, uma fala, um texto ou um discurso sejam coerentes. A lógica é o que faz um argumento ser nítido, o que vai determinar se ele é falso ou verdadeiro, será o seu uso social.

            Hoje nós vamos fazer um balanço de como foi o ano de 2020, sobretudo, na perspectiva de um conceito muito importante para a lógica: a premissa. Premissa é toda afirmação que é ou verdadeira ou falsa. Exemplos: se eu falo que o satélite natural do Planeta Terra é a Lua, estou partindo de uma premissa verdadeira. Se eu afirmo que o Oceano que banha o litoral brasileiro é o Oceano Pacífico, estou dizendo uma premissa falsa.

            Na lógica somente se trabalha com premissas, sejam verdadeiras ou falsas, e jamais se forma um argumento coerente e lógico com hipóteses. Hipótese é tudo aquilo que se afirma sem ter a comprovação ou de sua verdade ou de sua falsidade. Por exemplo, alguém de vocês me afirma hoje que o Brasil vai ganhar a Copa de 2022 no Qatar. Isso é uma hipótese, porque hoje não temos como comprovar se essa afirmação é verdadeira ou falsa. Depois da disputa da Copa do Mundo de 2022, será uma premissa e verificaremos se verdadeira ou falsa, mas por enquanto, é só uma hipótese.

            Com essas informações entendidas, vamos olhar superficialmente como está sendo o ano de 2020. Tivemos algumas premissas que permanecem desastrosamente verdadeiras: muitas mortes pela pandemia; outras inúmeras por racismo (casos horrorosos que ganharam a imprensa e protestos justíssimos como o de George Floyd nos Estados Unidos e o de João Alberto no Brasil); assassinatos e agressões de mulheres e homossexuais fruto do machismo e uma opressão brutal contra os pobres, pois os poucos que conseguiram auxílio do governo federal foi de míseros 600 reais, abaixo do salário mínimo.

            Vivemos a sonhada hipótese de uma vacina para combater e nos imunizar da pandemia. Infelizmente, a vacina ainda é uma hipótese, no fim das contas, nenhuma foi ainda descartada como falsa e nem efetiva e comprovadamente verdadeira e eficaz contra o vírus.

            Uma experiência que se confirmou como premissa verdadeira, e acho que devemos ver como algo bom que esse ano nos ensinou, foi a de saber uma coisa muito concreta: pobre somente pode contar com outro pobre. Vimos durante o ano muitos exemplos de solidariedade, que podem perceber, era sempre um pobre ajudando outro pobre. Arrecadar cesta básica, levar ao hospital, fazer uma compra para um idoso. Não foi o poder público ou algum rico que fez isso. Sempre, na maioria das vezes, foi outro pobre.

            O ano foi difícil, continua difícil e pelo jeito vai terminar difícil para quem tiver a felicidade de concluir o ano. Somos sobreviventes, muitos dos nossos ficaram pelo caminho e é por eles e por nós que vamos continuar trabalhando e lutando para que as coisas melhorem.

            Gostariam de me mandar alguma premissa, seja verdadeira ou falsa, que não falei por aqui? Qual seria ela? Qual seria a diferença entre um desejo e uma hipótese? Desejo a todos vocês, a seus familiares e amigos um Feliz Natal e um ano de 2021 cheiro de felicidades e de premissas deliciosamente verdadeiras.

 

Saudações filosóficas.

Prof. Ulisses.


Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1ZzL3YSKM7UO2RGVBUsMcW6u2V8YCmRtv/view?usp=sharing


sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Assis, 20 de novembro de 2020.

                                Título: A queda do Coelho Branco. Fonte: wikipédia.


Assis, 19 de novembro de 2020.

Queridos alunos.

            Tudo bem com vocês? Como passaram os últimos dias? Estão trabalhando? Cuidado, hein? Aqui a primeira e a segunda onda se unem em um único e gigantesco tsunami. Atenção sempre!

Gostaria de falar hoje sobre algo, que embora seja muito importante em Filosofia, é pouco debatido nas escolas. O assunto é a lógica. Alguém sabe o significado da palavra lógica? Normalmente, quando pergunto a alguns alunos se eles sabem o que é lógica, acabam respondendo: “É lógico, professor! ”.

Confesso que, quando respondem dessa forma à essa pergunta, já percebo que a pessoa conhece boa parte do significado do que vem a ser a lógica. Em Filosofia, a lógica é uma sabedoria que verifica se uma argumentação tem coerência.

Vou citar alguns exemplos. A ciência afirma que, ao nível do mar, a água ferve aos 100 graus Celsius. Isso porque, ao nível do mar, a pressão atmosférica é igual a 1 atm e a altitude é igual a zero. Em todas as vezes que se mediu a temperatura de ebulição da água, nessas condições, ela ferveu quando chegou em 100 graus Celsius.

Reparem que essa argumentação científica tem lógica, ou seja, ela é coerente. Os cientistas não precisaram pegar uma leiteira e um fogão e ir para todas as cidades do mundo, que estão ao nível do mar, para verificarem se esse pensamento é verdadeiro ou falso. Embora visitar todas as praias do mundo seja uma ideia muito agradável (não acham?), temos de lamentar que para isso é preciso perder muito tempo e dinheiro.

Para uma afirmação ser lógica, sua única exigência, é que ela seja coerente. Digo isso porque se confunde muito o valor lógico de um pensamento com o seu valor de verdade. Algo lógico não é necessariamente verdadeiro. Aliás, os grandes mentirosos são grandes mentirosos justamente por saberem mentir com lógica. São numerosos os que vivem, se sustentam e ficam até milionários enganando as pessoas com lógica e coerência.

Durante a Inquisição, no período Medieval, eram feitos alguns testes para saber se uma mulher era bruxa. Um deles, dos mais lógicos por sinal, se realizava da seguinte maneira. Quando a mulher era acusada de bruxaria, amarravam ela debaixo da água por cinco minutos. Se sobrevivesse à essa crueldade, os líderes religiosos a consideravam bruxa e, portanto, condenada à morte. Se não sobrevivesse, julgavam que Deus sabia que ela era bruxa e resolveu mandá-la ao inferno.

Não podemos negar a coerência e a lógica dessa manipulada argumentação. Em todas as circunstâncias a morte da mulher era o único resultado possível, coerente e lógico. Partindo da análise social que a Inquisição queria perseguir as mulheres, sobretudo as que tinham conhecimentos libertadores, esse método de análise é lógico e coerente. Agora conseguem compreender a razão porque uma argumentação lógica não é necessariamente verdadeira?

Quando a professora de Língua Portuguesa analisa uma redação, atenciosamente, um dos critérios que se preocupa na correção é a lógica. O conteúdo que você escreveu pode ser verdadeiro ou falso, mas deve ser lógico, coerente. O que vai determinar a veracidade ou a falsidade de seu texto é o uso social que pode ser feito dele.

Não estou defendendo que vocês criem pensamentos desumanos. Não pretendo que elaborem métodos eficazes de perseguição contra as mulheres. E também nem que argumentem logicamente como uma pessoa, religião, país, cor de pele sejam melhor do que as outras. Fico satisfeito em conseguir explicar que a lógica garante a coerência de um argumento, jamais a sua verdade, pois ao saberem disso podem se defender melhor de pensamentos lógicos e enganosos.

Em quais situações vocês utilizam a logica no dia a dia? Se alguém já te enganou com lógica, como foi o argumento que te iludiu? Em quais profissões a lógica é utilizada como arma de enganar e se aproveitar das pessoas?

 

Saudações filosóficas.

           Prof. Ulisses. 

Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/16hgPtyriSeXPP6vPc085t-66BAkop-q2/view?usp=sharing





sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Assis, 5 de novembro de 2020.


                                                 O tempo. Fonte: wikipédia 




Assis, 5 de novembro de 2020.

Queridos alunos.

Estão bem? Como vão as coisas?

Gostaria de alguns minutinhos da atenção de vocês, e se me concederem, ficarei muito satisfeito. Justamente por isso mesmo. É uma honra conseguir um tanto da atenção das pessoas, precisamente pela questão do tempo. E é exatamente dele que vamos conversar um pouquinho.

O tempo é daqueles temas que todo mundo sabe dizer alguma coisa sagaz, mas é difícil organizar em palavras qualquer definição mais específica sobre ele. Em todas as áreas do conhecimento humano, de uma maneira ou de outra, podemos perceber muitas considerações interessantes sobre o tempo.

Para a Física, mais nítido nas argumentações do cientista Albert Einstein, o tempo é relativo. Está relacionado com outras coisas como a velocidade e o espaço. Dependendo da velocidade de deslocamento de algum objeto, por exemplo um avião, o tempo corre de forma mais rápida ou mais lenta. Suas demonstrações são valiosas e indispensáveis para o acelerado desenvolvimento tecnológico que temos em nossos dias.

Na tradição religiosa judaica, ficaram registrados alguns pensamentos sobre o tempo, pela escrita do Rei Salomão. Nele, o então monarca dos judeus, afirma que há tempo para tudo. Para plantar, para colher, para ficar alegre, para ficar triste, para trabalhar, para descansar. A sabedoria se insere em identificar o tempo certo para fazer a coisa certa, porque o resto é tudo ilusão.

Geralmente, as religiões relativizam o tempo em função de Deus, que seria o senhor criador do tempo e de todas as coisas, para o qual um minuto, um século ou um milênio é nele a própria eternidade. Para os seres humanos, recomendam o controle dos prazeres no presente, em nome de uma vida após a morte em um paraíso

Sempre me recordo quando faltam apenas dois minutos para acabar a última aula. Eles parecem eternos, não acham? E são apenas dois minutos! Para o corredor jamaicano Usain Bolt, nesse mesmo tempo, dá para ele dar uma volta ao redor do mundo. Se o cara corre cem metros em alguns segundos... dois minutos é uma vida!

Os filósofos também escrevem sobre o tempo, e normalmente, falam de maneira mais complicada e cheia de palavras difíceis aquilo que a maioria das pessoas já sabem. Alguns dividem o tempo em passado, presente e futuro, sucessivamente. Outros dizem que o tempo é relativo à intensidade daquilo que se vive, como a felicidade de uma criança que ganha um presente que desejou muito, essa satisfação pode durar a vida inteira ao se lembrar daquele instante. O mesmo vale para quando acontece algo ruim e triste, enfim... são coisas da vida.

Há quem valorize o tempo presente, ou seja, o agora. O futuro estaria em um segundo plano, pois depende em partes daquilo que se faz agora. Digo em partes porque não conseguimos controlar tudo, nem mesmo se nós estaremos no futuro. O passado num terceiro plano, afinal, não podemos alterá-lo apenas nos resta reinterpretá-lo à nossa maneira.

Uma vez perguntei para um grande amigo, e filósofo, se tempo era dinheiro. O Sanabria me respondeu, sabiamente, que tempo é muito mais valioso do que dinheiro. Imaginem a pessoa mais rica do mundo em um estágio terminal de alguma doença grave. Ela gastaria todo o seu dinheiro por um tempo a mais.

Comecem a reparar como as pessoas que se recuperam de sérios problemas de saúde como elas valorizam o tempo presente. Procuram aproveitar melhor a vida com afazeres mais edificantes, tanto do ponto de vista professional como em lazeres.

E vocês o que pensam? Valorizam o tempo? Tempo é dinheiro? A velocidade das coisas altera a percepção do tempo? E quando o tempo presente é ruim, o que fazer?

 

Saudações filosóficas.

Prof. Ulisses.


Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1Uq5OZth26TEFb4v9zk50xQMsQIFAPOPe/view?usp=sharing


sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Assis, 23 de outubro de 2020


                                                A Vaca. Fonte: wikipédia


Assis, 22 de outubro de 2020.

Queridos alunos

E aí? Tudo bem? Terminando as atividades do bimestre? E no mais como estão? Trabalho? Família? Espero que as coisas estejam indo bem, ou pelo menos o melhor possível, pois dentro da nossa realidade todo cuidado é pouco e pior do que está pode ficar.

Hoje eu gostaria de conversar com vocês sobre algo muito importante para a saúde pública. Em tempos de pandemia, em que milhares morrem e nos acostumamos com dados absurdos de óbitos nos noticiários, um dos desejos mais populares é a criação de uma vacina. E é justamente sobre isso que vamos falar, com um olhar mais filosófico, sobre a da história da vacina.

A Europa, no final do século XVIII, passava por uma grave epidemia de varíola. Essa doença, transmitida por vírus, acompanha a humanidade desde a antiguidade e somente no século XX foi considerada erradicada. Causa febre, dores de cabeça, dores pelo corpo, feridas e bolhas por toda a pele e em seu tipo mais grave pode até matar.

No ano de 1796, o médico inglês Edward Jenner, observou que os camponeses responsáveis por tirar leite de vaca não pegavam varíola. Por terem contato direto com o animal, todos eles tinham contraído varíola bovina, e essa modalidade da doença não é mortal para os seres humanos.

Isso fez com que fizesse um experimento. Pegou o pus de Sarah Nelmes, que tinha varíola bovina, e o injetou em um menino de 8 anos, chamado James Phipps. O garoto pegou apenas uma leve infecção e em 10 dias estava recuperado. Depois disso, Jenner inoculou no garoto o vírus da varíola humana retirado de outra pessoa e, surpreendentemente, o menino não pegou varíola.

A partir disso, através de um contato com um tipo leve de vírus ou com um vírus desativado, a medicina começou a desenvolver vacinas para combatê-los. Todas as vacinas que tomamos faz com que a gente tenha um contato controlado com o vírus. Isso desperta as defesas de nosso organismo, fato biológico de fundamental relevância, caso ele tenha seja infectado pelo vírus que nos faria doentes.

Por isso, a palavra vacina tem origem no termo vaccinus que significa “derivado da vaca”. De início, os médicos em geral foram muito resistentes com essa nova técnica de combate aos vírus. Alguns religiosos diziam que isso era a degeneração da raça humana por meio do que chamavam de “vacalização” ou “minotaurização”. 

Essa resistência demorou muito tempo para ser superada. No Brasil, por exemplo, tivemos um episódio político chamado “A Revolta da Vacina”. Em 1904 médico sanitarista Oswaldo Cruz, com a intenção de controlar uma epidemia de varíola no Brasil, articulou com o governo a obrigatoriedade da vacina. Militares, republicanos e monarquistas, ou seja, opositores do governo oligárquico de Rodrigues Alves, conjuntamente a população cansada de ser massacrada, se colocaram contra. Foram quase duas semanas de confrontos armados do exército nas ruas do Rio de Janeiro, entre revoltosos e tropas governamentais. Verdadeiras cenas de guerra.

O prejuízo foi catastrófico para toda a sociedade. Poucas pessoas se vacinaram, e em 1908, o Rio de Janeiro passou pela mais terrível epidemia de varíola já vista em toda a sua existência. Aí a reação da população foi inversa. A população correu para ser vacinada.

Disso, queridos alunos, podemos fazer algumas reflexões. Na atualidade as vacinas são testadas em diversos níveis até chegar para a população. Muitas instituições científicas acompanham esses testes, e para uma vacina ser aprovada para uso em seres humanos em larga escala, ela já passou por uma sequência de procedimentos seguros que podemos confiar. Isso não nos impede de analisar e compreender o ambiente social em que uma vacina é elaborada e distribuída pelo poder público.

A história está aí para que possamos pensar sobre o que aconteceu, respeitando os fatos passados, mas de olho nos nossos interesses e ações para o presente momento. Repudiem alguém que fala para vocês não confiarem na medicina e na ciência. Cuidado com quem fala para vocês confiarem apenas na medicina. É inteligente compreender o contexto histórico em que uma novidade médica se apresenta para a sociedade.

Galeno de Pérgamo, famoso médico da Roma Antiga também conhecido como Cláudio Galeno, já dizia que o melhor médico é também um filósofo. Posso afirmar que os vacinados também são filósofos, e embora a disputa pela vacina para nos imunizar da COVID-19 seja também uma corrida por uma hegemonia econômica e política, não vejo problema algum em tomar um medicamento desses desde que seja recomendado pelas instituições competentes de saúde.

E vocês? Ansiosos pela criação de uma vacina que nos proteja do coronavírus? Acham que ela vai ser elaborada e distribuída logo? Como se posicionam diante disso?  

 

Saudações filosóficas.

Prof. Ulisses.



Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1gCeQvHKp7T-NrbkGd5nTs522OXoOrQNR/view?usp=sharing


quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Assis, 15 de outubro de 2020.


 

                                         Professor Raimundo. Fonte: TV Foco



Assis, 15 de outubro de 2020.

Queridos alunos e professores.

Tudo bem com vocês? Como estão as coisas? Trabalhando e estudando? E as reponsabilidades com as horas e horas de ensino digital? Tudo caminhando? Espero sinceramente que todos estejam relativamente bem dentro de nossas possibilidades.

Hoje é um dia muito especial. Celebramos o dia dos professores. Nesse ano tão difícil, em que tivemos a humanidade afrontada pela pandemia; conseguimos chegar até a famosa data para lembrar dos professores. São aqueles que vão às escolas para construir o conhecimento ao lado dos estudantes.

Alguém sabe me dizer por que no dia 15 de outubro comemoramos o dia do professor? A resposta nos ensina muito sobre a importância da educação na formação do Brasil. O imperador Pedro I  assinou no dia 15 de outubro de 1827, data que também a Igreja Católica dedica à educadora Santa Teresa de Ávila, um Decreto Imperial que obrigou a criação do Ensino Elementar no Brasil.

No ano de 1948, a deputada negra Antonieta de Barros, cuja as lutas contra a exploração, o racismo e o machismo são dignas de numerosas cartas, apresentou um projeto em Santa Catarina que fazia do dia 15 de outubro um feriado escolar. A luta das mulheres, em escala mundial, é o que alavanca nossa sociedade para níveis mais humanos. Essa data foi admitida como feriado nacional a partir de 1963, por meio do presidente João Goulart

É fundamental, queridos alunos e professores, ser destacado que a primeira regulamentação para o ensino básico no Brasil foi criada 327 anos após sua invasão pelos europeus. Isso nos dá a dimensão de algumas coisas sobre nossos problemas com a educação. Afinal, para que ensinar negros e índios a lerem e escreverem? É mais fácil se tornar senhor e explorar uma população analfabeta do que um povo que sabe por onde se organizar coletivamente e exigir seus direitos.

No entanto, durante esses 193 anos em que a educação é minimamente obrigatória no País, algumas coisas mudaram. Os tempos mudam, mas permanecendo o direito de um ser humano explorar o trabalho do outro, transformam-se somente os meios de como esfolar o outro com mais eficiência. Temos mais escolas, mais pessoas alfabetizadas, mais pessoas com acesso ao ensino superior e a coisa veio, por meio de muita luta dos trabalhadores, de certa forma aumentando seu acesso à educação.

Como vocês percebem todos os dias, nossas escolas estão muito longe de atenderem as necessidades reais de alunos e professores. Falta tecnologia, falta salário digno, falta alimentação, faltam profissionais de saúde e, acima de tudo, falta o reconhecimento das nossas autoridades de que a comunidade escolar não quer ser explorada.

Os professores, peço licença para a partir de agora usar o termo professoras por elas constituírem aproximadamente 90% de todo o magistério, são as pessoas mais solitárias do universo. Entram em uma sala de aula sem nenhum apoio de quem lhes deveria disponibilizar recursos. Apenas vocês, queridos estudantes, acabam sendo nossos companheiros e também vítimas desse prejudicado sistema de ensino. A maioria delas ganham menos de um salário mínimo, isso mesmo, muitas de suas professoras não ganham nem o necessário para a sobrevivência. Apenas sobrevivem.

Entram sozinhas na sala de aula. Acompanhadas somente por algum livro didático ou um currículo escolar, normalmente feitos pelos governos para que vocês não aprendam o suficiente, e ficam abandonadas à própria sorte. Essa professora, sem dinheiro e recursos educativos, tem família que depende dela. Filhos, mães, pais, esposos e agregados. Durante a semana ela empenha maior parte de seu tempo em ensinar seus alunos a lerem e escreverem do que seus próprios filhos.

Muitas dessas professoras ministram quase 70 aulas por semana. Trabalham os três períodos dos 5 dias de aulas da semana, e claro, mais o tempo que usa em seu descanso para preparar e finalizar essas aulas. Para vocês terem noção, pra poderem ter essa jornada de trabalho, é preciso trabalhar de segunda à sexta das 7 da manhã às 23 horas da noite. E isso muitas vezes sendo obrigada e lecionar em outros municípios, ou seja, gasta tempo e dinheiro com transporte: ônibus, bicicletas, motos, carros, trens, barcos, mulas e, na maioria das vezes, a pé.

Isso falando apenas de suas reponsabilidades profissionais. Não estou sequer mencionando a possibilidade de elas terem um período de descanso ou alguma tarefa pessoal. Acreditem! Essas professoras têm casas (habitualmente alugadas), contas a pagar, inúmeras delas um marido que não trabalha e que se encosta como mais um parasita sugando seu trabalho, atribuições domésticas e os filhos.

É impressionante, e humanamente fantástico, que essas professoras tenham filhos. O estado não propicia nem o direito de pré-natal para elas. A quantidade de faltas medicas que são necessárias para se realizar esses exames mensais é de no mínimo nove, por aproximação, uma por mês. Algumas professoras tem o direito de seis faltas ao ano, sendo que não pode ser mais de uma por mês, e a maioria delas duas faltas por contrato. Como alguns contratos são de dois anos, ela pode faltar uma vez por ano para ir ao médico.

Já vi professoras que tiveram licenças médicas negadas pelo estado quando faziam tratamentos de quimioterapia de combate ao câncer. Na prática, tiveram seus salários descontados nesse momento tão delicado da vida em que precisam de mais apoio do que nunca.

Quando elas se organizam para reivindicar seus direitos, contra esses abusos que os governos fazem, acabam sendo processadas e tendo seus míseros salários cortados. São verdadeiras guerreiras que lutam por toda a coletividade do magistério. Isso nos motiva a apoiá-las em suas lutas, que são também nossas, contra essa realidade que oprime a todos nós que dependemos diretamente da educação, ou seja, toda a sociedade.

Agora, nessa calamidade social que se impõe por meio da pandemia de COVID-19, muitos governos querem que voltemos à escola sem nenhuma segurança sanitária contra o vírus. As autoridades políticas estão empurrando goela a baixo uma lei que regulamenta o ensino à distância, trocando em miúdos, da forma como está sendo implementada gera mais desemprego e menores acessos do povo ao ensino. Não é todo mundo, alunos e professores, que tem internet, computador e celular. Muitos de nós, comunidade escolar, dependemos da escola até para a alimentação.

Isso me faz lembrar um grande pensador do Brasil chamado Darcy Ribeiro. Ele afirmou que a crise da educação não é uma crise; é projeto. Enquanto não nos organizarmos em grupo para exigir nossos direitos, como estudantes e professoras, as coisas são feitas para continuarem assim e até mesmo piorarem. Nós temos os mesmos direitos. Escola de qualidade, salários dignos, os estudantes também tinham que ter um salário para irem à escola por estarem dedicando seu tempo ao estudo e ao futuro do Brasil, merenda humanamente qualificada. Essa é a nossa luta.

Dia 15 de outubro é dia das professoras!

Salários e condições humanas de aula!

Merenda e salários para estudantes!

Dia 15 de outubro é dia de luta pela educação!

Feliz dia das professoras!

E vocês, se nossa sociedade fosse justa, como seriam as nossas escolas?

 

Saudações filosóficas.

Prof. Ulisses.


Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1rs8yVoZVYRf0I_xRpUdxnfLvuxAQPI7P/view?usp=sharing


sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Assis, 09 de outubro de 2020.


 Retrato de Nicolau Maquiavel. Autor: Santi di Tito (1536 - 1603) Fonte: Wikipédia.


Assis, 09 de outubro de 2020

Queridos alunos.

            Olá! Tudo bem?

Gostaria de conversar com vocês hoje sobre um filósofo muito famoso, ou melhor, um filósofo cuja fama vai além de seu pensamento. Já ouviram falar na palavra “maquiavélico”? O que ela significa? Uma pessoa maquiavélica seria alguém que executa friamente um plano, desde que alcance seus objetivos, não se importando com os outros?

Por enquanto, vamos compreender que maquiavélico é uma referência ao filósofo Nicolau Maquiavel. Ele ficou mundialmente conhecido por escrever sobre política, e em tempos de eleições, é sempre bom lembrar os pensamentos de pensadores que influenciam diretamente os candidatos e os políticos já ocupantes de cargos públicos.

Seu livro que ao longo dos séculos foi se consolidando como grande clássico da política chama-se “O Príncipe”. Nele o filósofo descreve algumas práticas, que haviam sido executadas por grandes líderes da antiguidade, e que inspiraram muitos outros até nossos dias. Inclusive, há uma versão muito divulgada do livro comentada pelo próprio Napoleão Bonaparte.

Muito se especulou sobre as motivações que fizeram com que Maquiavel escrevesse essa obra. Há quem diga que se trata de um pedido de emprego para cargo público na cidade de Florença. O filósofo Jean-Jacques Rousseau já entende que o livro é uma grande ironia sobre os mandos e desmandos dos grandes políticos a respeito da população trabalhadora e pobre. Independentemente de qualquer uma dessas interpretações, foi “O Príncipe” que tornou Maquiavel conhecido da maioria das pessoas

Vou destacar aqui para vocês apenas alguns aspectos. Na leitura desse livro encontramos vários outros, aliás, leitura muito mais do que recomendada. Maquiavel se coloca com um grande comentarista político do seu tempo, que é a passagem do século XV ao XVI, e ouso dizer que foi o primeiro filósofo a escrever sobre o seu tempo presente.

O que chama a atenção em Maquiavel é que o príncipe é proposto como uma posição política de maior poder sobre o que entendemos atualmente como país (hoje seriam os presidentes das nações). Ele deve fazer de tudo para manter o seu poder. Enganar, manipular, uso de violência física, enfim, todo tipo de conduta desde que seu objetivo seja manter-se no poder político.

Disso temos como consequência ser o Maquiavel o primeiro pensador que fez uma separação sobre ética e política. Não foi Maquiavel quem inventou na prática essa separação, pois usa de muitos exemplos históricos de políticos, reis, imperadores, ditadores e príncipes que para se manterem no poder não usavam nenhum tipo de ética, ou seja, respeito à integridade e dignidade humana. Contudo, no campo da análise política feita por um especialista, ele foi sim o primeiro a recomendar que, para não se perder o poder político, vale tudo.

Essa é uma característica básica de um pensamento elitista e conservador: garantir o poder sem nenhum escrúpulo ético. No entanto, Maquiavel também recomenda que é bom satisfazer as necessidades básicas do povo, não pelo bem do povo, mas porque um líder político que não tem apoio popular e é odiado pelos seus governados acaba perdendo o poder. Dessa forma, tudo gira em torno de permanecer no comando e não no bem comum.

Meus queridos, não estou questionando essa orientação central que os governantes possuem de quererem se manter no poder político a qualquer custo. Esse é um aspecto íntimo de qualquer governo sobre a população. O que podemos questionar é que apenas algumas pessoas, ou uma classe social de parasitas que nunca trabalharam e nem se preocuparam com os trabalhadores, façam isso.

No final do ano de 2002, Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente do Brasil de trágica lembrança, ao terminar seu segundo mandato, disse que iria ficar por algum tempo longe da vida pública e reler “O Príncipe” de Maquiavel. Diante dessas poucas ideias ditas sobre Maquiavel é muito compreensível essa disposição do ex-presidente.

Na época, eu acreditava que ele estava em condições até de superar o maquiavelismo do livro, não no sentido de ficar eternamente no poder, mas no das artimanhas contra a população. Essa suspeita minha se confirmou no ano de 2010, quando escreveu um texto de introdução para a leitura de uma edição de “O Príncipe” em Língua Portuguesa.

O que vocês pensam sobre o maquiavelismo? Afinal, o que é ser maquiavélico? Indiferença fria em relação aos outros? Estratégia para a manutenção do poder político pelo maior tempo possível? As duas coisas? Ou há outras maneiras que queiram descrever sobre o ser “maquiavélico”?

 

Saudações filosóficas (e maquiavélicas)

Prof. Ulisses.


Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1H61R4jYoAgeUTFGq2nZwV9_XZuCnkos1/view?usp=sharing

 


sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Assis, 2 de outubro de 2020.


 Título: A Clarividência (1936). Autor: René Magritte (1898 - 1967). Fonte: Pinterest.


Assis, 2 de outubro de 2020.

Queridos alunos.

Como passaram a semana? Muitos trabalhos da escola? A casa e a família estão bem? E a saúde? E o trabalho? Vamos nos esforçando para sobreviver à pandemia e pelo bem-estar de toda a comunidade. É o que tem para hoje.

Vamos conversar um pouco sobre profissões. Em toda minha trajetória como professor, sobretudo no Ensino Médio, percebo que a maioria de vocês tem dúvidas sobre qual profissão devem se esforçar para aprender em um curso, seja de ensino técnico ou universitário.

Evidentemente, e não vejo nenhum problema nisso, o grande critério de escolha sobre as profissões que a maioria adota é a questão da facilidade de se conseguir um emprego e um bom salário. Nossos desejos e escolhas são definidos pelas nossas necessidades materiais e, convenhamos, a de nós que somos trabalhadores humildes e filhos de gerações e gerações de trabalhadores pobres temos que nos esforçar e preocupar com isso sim.

Posso dividir por aqui como me tornei um professor de Filosofia. Quando tinha a idade de vocês, lá no final dos anos 1990, me deparei com o dilema de que profissão gostaria de seguir. Por também estar preocupado com a questão do emprego e do salário, primeiramente, pensei nas chamadas profissões liberais. Os cursos que consegui desejar foram os de medicina, direito e de contabilidade.

Fiz um curso técnico de contabilidade na popular escola industrial de Assis. Quando iniciei tinha quinze anos de idade e conclui com dezessete. Ali eu percebi que esse trabalho, embora na época poderia ser uma fonte de renda para mim, não iria ser algo que eu gostaria de desempenhar. Tinha certa facilidade com cálculos e matemática, mas percebi que não teria uma relação fácil com os meus chefes. E, acreditem, com a experiência e o estudo aprendi que em trabalho nenhum a lida com os patrões é harmoniosa, pois o interesse deles é oposto ao dos empregados.

No final de 1998, chegou o período de inscrições para o vestibular. Como havia concluído o curso técnico no meio desse ano, e já tinha decidido que procuraria estudar para trabalhar com outra coisa, havia ainda a possibilidade de procurar o ingresso nas faculdades de medicina e direito. O Brasil tinha passado pela reeleição de um presidente privatizador e lesa pátria chamado Fernando Henrique Cardoso, o qual eu não desejava que fosse reeleito, e eu sabia que os tempos continuariam difíceis.

Nesses tempos, com poucas esperanças para o futuro, desenvolvi algo chamado princípio de realidade (os psicólogos adoram isso). Compreendi que minhas condições financeiras me possibilitariam um curso público, não tinha dinheiro para os pagos, sou filho de um motorista de caminhão e de uma cozinheira. As faculdades de medicina e direito são praticamente impossíveis para os pobres, pois nossa formação na educação básica é precária no Brasil. Isso somente para quem não tem dinheiro e desde o início do universo a aproximadamente 14 bilhões de anos. Assim, para poder estudar sem pagar mensalidade, deveria ser um curso que a minha formação ruim me permitiria ir bem no vestibular.

Diante dessa realidade, pensei nos cursos que a Unesp de Assis tinha na época. Tinha bastante afinidade com psicologia, biologia e história. Desses cursos, exclui automaticamente psicologia e biologia, pois exigiam uma disponibilidade de tempo que não tinha, afinal de contas, precisava também trabalhar. História passou a ser uma possibilidade concreta, contudo, comecei a pensar sobre o curso de Filosofia da Unesp de Marília. Isso foi resultado de dois fatores: ele também é disponível sem mensalidades e tive contato com os pensamentos de alguns filósofos por meio das histórias que um familiar sempre me contava.

O Tio Cido, primeiro filósofo e livre pensador que eu conheci, é o irmão mais velho do meu pai. Ele sempre contava suas histórias. Era um grande leitor de bons livros e um ser humano muito acima da média, tanto como pessoa e também como estudioso. Ele trabalhou por dezenas de anos em gráficas, que são as empresas fabricantes de livros, fato de grande utilidade para conhecermos parte dos pensamentos e ideias dos grandes escritores e filósofos. Eu até hoje tento ter a sabedoria e o conhecimento do Tio Cido, como no tempo do vestibular tinha perdido as esperanças de ganhar muito dinheiro trabalhando, resolvi cursar a faculdade de Filosofia.

Na época não existia a obrigatoriedade da disciplina de Filosofia no Ensino Médio, por isso, o contato que tive com os pensamentos dos filósofos foi por meio desse primeiro filósofo que conheci. A possibilidade de ser professor no Ensino Médio era muito pequena, então, iniciei o curso pensando em ir trabalhando e me especializando também em outras áreas nas quais eu estivesse atuando. Quando terminei a faculdade, tive uma tristeza e uma alegria muito intensas. Meu pai havia tido um derrame cerebral muito grave, que o faz conviver com sequelas até hoje, e no início de 2005 a disciplina de Filosofia retornou ao currículo do ensino médio paulista. Dessa forma, bem no final da minha formação teórica em Filosofia, eu tinha um emprego por onde começar.

Fui contratado como professor e cá estou desde o dia 14 de fevereiro de 2005. No ano de 2007 passei no concurso o que me garantiu uma estabilidade na função de professor de educação básica, pelo menos até hoje, pois com esse governo estadual (João Doria) e federal (Jair Bolsonaro) que temos tão empenhados em destruir com o serviço público para a população, não sei até quando os serviços do Estado ficarão garantidos. Apenas tenho o conhecimento que sem a luta e a organização dos servidores públicos e a comunidade, nem a educação precária e deficitária que está por aí o povo terá acesso.

Percebam que o que fez de mim um professor de Filosofia são dois fatores muito decisivos na vida das pessoas. O primeiro e determinante fator foi o entendimento da minha condição financeira e material para continuar estudando. O segundo e formativo foram os contatos que tive durante a infância e a adolescência com os estudos.

Como já dizia Marx no livro Contribuição à Crítica de Economia Política: “O concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas determinações, isto é, unidade do diverso”. Em primeiro lugar, somos o que a realidade nos permite ser, secundariamente, desejamos e sonhamos aquilo que a realidade nos coloca como metas e objetivos no horizonte.

E vocês o que sonham e desejam como profissão? Suas realidades financeiras e materiais possibilitam os seus desejos? Tem como superar dificuldades financeiras para continuarem buscando o que desejam? Ou pensam em adaptar novos desejos às suas realidades materiais?

 

Saudações filosóficas.

Prof. Ulisses 

Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1j_eemwWBkp0-wMoBYtqLi3OXPFg8Yx0t/view?usp=sharing



sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Assis, 25 de setembro de 2020.

Título: Angelus Novus (1920). Autor: Paul Klee (1879-1940). Fonte: Wikipédia.
 


Assis, 25 de setembro de 2020.

Queridos alunos.

Tudo bem com vocês? Como passaram a última semana? Estão tomando cuidados? Em tempos de pandemia, em que o estado e o consórcio de imprensa se limitam a contar mortos, é importante permanecerem em constante vigilância. Afinal, estamos lutando para superar essa verdadeira desgraça coletiva que nos tem feito sofrer muito. E vamos conseguir!

Tenho recebido muitos comentários sobre nossas cartas. Nos últimos meses, o que não me surpreende de maneira nenhuma, é o aumento significativo das suas opiniões, críticas e sugestões. Continuem assim! A única forma que temos de melhorar os conteúdos é trocando ideias sobre eles.

E, faço aqui um justo e necessário destaque, os apontamentos que vocês fazem não aumentaram somente em quantidade, mas também em qualidade. Entendam isso como um grande elogio meu como professor de filosofia, pois isso quer dizer que além de lerem e escutarem os nossos textos, estão interpretando e se posicionando diante deles.

 Não adianta apenas fazer uma interpretação de um texto por ela mesma, mas se colocar e agir como alguém que também tem algo a fazer e a dizer diante das informações entendidas. E isso estão fazendo com muita habilidade e propriedade. Parabéns!

Hoje quero conversar com vocês sobre a necessidade de ouvirmos e contarmos histórias... as nossas histórias. Elas nos fazem ser o que somos e nos transformam, sendo que ao longo da vida, estamos em constante transformação. Queiramos ou não, percebamos ou não, o fato de mudarmos é a única coisa que não muda.

Na escola, por exemplo, vocês escutam, falam e fazem história o tempo todo. O professor, quando está em aula, a todo momento está contando uma história para os estudantes. A interação entre alunos, sendo naquela bagunça monumental que fazem ou quando estão conversando mais pessoalmente, é recheada de histórias. Enfim, contar histórias é algo que as pessoas gostam, e como diria o sábio Paulinho Gogó: “Quem não tem dinheiro conta história. ”.

Existe um filósofo, que aprecio muito suas histórias, chamado Walter Benjamin. Ele tem muitos pensamentos bastante interessantes para pensarmos em nossos dias. Sua biografia é de uma riqueza humana gigantesca, podemos usar várias cartas para escrever sobre ela. Como adoro dar spoiler e contar o final, sua morte derivou das perseguições dos nazistas aos judeus, e ele era judeu...

Benjamin, depois da Primeira Guerra Mundial, afirmou que os seres humanos estavam perdendo a capacidade de contar histórias. Para chegar nessa conclusão, ele percebeu que os soldados que sobreviveram à guerra e voltaram para suas casas permaneciam calados. Também pudera, né? Imaginem o que é vivenciar os horrores e a matança de um conflito armado.

Permitam-me por um momento, queridos alunos, pensar com vocês e com Benjamin de modo a revigorar esse seu pensamento. Nós estamos mesmo perdendo nossa capacidade de ouvir e de contar histórias? Não dá para compreender um soldado traumatizado por uma guerra, ou qualquer outra pessoa traumatizada por qualquer outra coisa, não querer contar essas histórias? Falar sobre um acontecimento traumatizante é difícil? Dividir um trauma com alguém pode ajudar em sua superação?

Podem reparar, as pessoas gostam de ouvir e de falar histórias. As redes sociais estão cheias de histórias. Os programas e sites vivem de acontecimentos mais comuns das vidas dos famosos. Vejo também as nossas cartas, alguns preferem ouvi-las pelo áudio e outros lê-las pelo celular, mas se interessam em suas histórias.

Como a maioria das pessoas, recordo com saudade das histórias das minhas avós e dos meus tios e tias que já se foram, e que sempre tinham algo para dizer sobre o passado, o presente e o futuro em suas narrações. Quando me coloco a escrever cartas para vocês, é porque também gosto de contar e de ouvir histórias.

Contudo, quando o que tenho para dizer me lembra de um trauma antigo, também não gosto de falar, mas é necessário. Existem profissionais especialistas nisso, os psicólogos, os que fazem a gente desenterrar histórias que de tão tristes que foram nossa mente acaba se esquecendo para a gente não lembrar. Mas o resumo de tudo isso é que, na realidade precisamos contar as nossas histórias, se não for para todo mundo, tem que ser para nós mesmos.

E vocês contam suas histórias? Gostam de ouvir histórias? Conversam com aquele familiar ou amigo idoso que conta muitas histórias? Será que quando acabar a pandemia, conseguiremos contar as histórias que estamos vivendo com ela? Não nos esqueçamos de nosso passado, para não repetirmos os mesmos erros no presente e no futuro.

Saudações filosóficas.

Prof. Ulisses.


Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1BYmgx7qptW8puZaomyOoBgyISnGZ1GbO/view?usp=sharing

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Assis, 18 de setembro de 2020.

Título: "O Velho Pescador" (1902) Tivadar Kosztka Csontváry (1853 - 1919) Fonte:UOL.


Assis, 17 de setembro de 2020.

Queridos alunos.

Tudo bem com vocês? Como passaram a semana? Trabalhando e estudando bastante? Estão se comportando bem. Mocinhos e mocinhas... olha lá hein? Espero que estejam com a saúde e todas as demais necessidades humanas em dia.

Na última carta, debatemos um pouco sobre a saudade e a função da disposição filosófica em criar perguntas. Também falamos sobre a importância de responder algumas dessas perguntas, sempre conscientes de que as perguntas e as respostas são filhas de seus tempos históricos.

Incentivei vocês, em vez de responderem as perguntas que normalmente deixo abertas nos finais das cartas, a criarem suas próprias indagações. Pois bem! A grande maioria dos questionamentos que vocês me mandaram foi: “o que é saudade? ” -  e “por que sentimos saudades? ”

Minha avó tinha dois sábios ditados que eu não soube respeitar. Sempre me dizia: “Não mexe com quem tá quieto “ e “Quem fala demais dá bom dia a cavalo”. Ainda bem! Por mais difícil que sejam essas dúvidas que vocês apresentaram, elas nos estimulam a procurar saber mais sobre esse sentimento tão humano que é a saudade. Então... vamos lá!

Em linhas gerais, vou procurar demonstrar o significado histórico da palavra saudade; como nosso corpo reage quando percebe socialmente à saudade e algumas impressões pessoais que tenho sobre a saudade. Tudo isso de forma bem resumida e bem limitada.

A palavra saudade vem do latim solitas, cujo significado é solidão. Atualmente, o modo como usamos esse termo, mostra um sentimento que se refere à alguma pessoa, coisa ou situação que tivemos contato no passado e nos faz falta hoje. 

Já vi muitas pessoas dizerem que a palavra saudade é uma criação única da Língua Portuguesa e, prestem atenção, isso é falso. Em diversos idiomas há palavras com significados muito parecidos, para não dizer idênticos, ao que compreendemos em nossa língua.

A primeira vez que a palavra saudade foi dita em território brasileiro foi ainda na época do Brasil colônia. Os portugueses que se mudavam para o Brasil, para saquear as riquezas dos povos indígenas e (também matá-los), a usavam para expressar a falta que sentiam dos seus amigos, familiares e do país de Portugal. Com o tempo e o desenvolvimento literário, fomos nos apropriando desse termo para dar um significado de melancolia e tristeza.

Quando sentimos saudade, ou seja, a falta de algo ou de alguém, nosso cérebro tem uma reação que nos motiva à busca de uma satisfação. Ele aumenta a produção de um hormônio chamado cortisol, que é responsável por ficarmos estressados e inquietos; e diminui a produção de oxitocina, que possibilita a sensação de satisfação amorosa.

Do ponto de vista prático, a insatisfação que sentimos quando estamos com saudade é um aviso do cérebro para você buscar alguma satisfação. Ela pode ser o reencontro com alguém, com algum lugar ou alguma situação. Quando esse reencontro não é possível, o melhor a fazer é buscar essa satisfação em outras coisas. Cuidado hein, gente! É saudável que essas outras coisas sejam bem escolhidas.

Aí que entra o lado filosófico da saudade. Quando não é possível eliminar a saudade, porque a infância e a juventude não voltam ou porque ninguém renasce, a saudade se torna um vínculo que você tem com o seu passado para dar um sentido na sua vida presente. É inteligente usar a saudade como uma motivação para novas experiências com a intenção de se revigorar, mesmo que ela permaneça como uma lembrança melancólica de algo que não volta mais, considero fundamental diminuir os níveis de cortisol no corpo.

Não se iludam. Todo mundo sente saudades e isso não deve ser visto pelo lado ruim da coisa. Não sinto nenhuma saudade de estar com vocês às 7 h ou às 23 h na escola, mas sinto muitas saudades de vocês e até da própria escola. Sinto saudades dos funcionários e dos professores.

Contudo, ainda não é tempo de voltar para a escola porque nenhuma medida de saúde pública como a vacinação da população ainda foi executada.

Assim, eu acabo por diminuir esse sentimento quando escrevo cartas pra vocês e me alivio quando me respondem. Quando converso com alguns colegas em reuniões de professores on line eu também me sinto bem. Enfim, a saudade nunca pode ser uma justificativa para se cometer bobagens, mas para buscar um progresso coletivo e individual.

Vou deixar aqui uma sugestão para vocês. Todo mundo sabe muito bem do que sente saudades, agora, façam um exercício de perguntar para a pessoa mais idosa que você conhece sobre o que ela sente saudade. Será que você vai se surpreender com a resposta? 

Por fim, fica um poema de Fernando Pessoa, chamado “Eu amo tudo o que foi” publicado no livro “Poesias Inéditas (1930 – 1935) ”.

 

Eu amo tudo o que foi.

 

Eu amo tudo o que foi,

Tudo o que já não é,

A dor que já não me dói,

A antiga e errônea fé,

O ontem que a dor deixou,

O que deixou alegria

Só porque foi e voou

E hoje é já outro dia.

 

(Fernando Pessoa)

 

Saudações filosóficas.

Prof. Ulisses.


Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1CA1XGeI8OUZjDhnPwHE1EoRNCXqL2LuG/view?usp=sharing


sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Assis, 08 de setembro de 2020.


        Título: Saudade (1899) Almeida Júnior (1850-1899). Fonte: Wikipedia.


Assis, 08 de setembro de 2020.

Queridos alunos.

Como passaram a semana? Se cuidando para não contraírem COVID-19? Vocês estão bem? E as coisas como vão? Estão conseguindo dar conta das tarefas da escola? De coração aberto e, com toda a sinceridade do mundo, espero que estejam bem juntamente com todos seus amigos e famílias.

Hoje, de maneira muito especial, gostaria de falar sobre uma coisa excessivamente humana. O fato de sermos humanos, e a todo momento passarmos por mudanças (quer gostemos ou não), faz com que sempre estejamos inquietos e insatisfeitos. Lembramos o passado, vivemos no presente e projetamos o futuro. E assim caminha a humanidade.

Vamos refletir um pouquinho sobre as lembranças. Elas, necessariamente, fazem nossa mente recuperar o passado. Aqueles acontecimentos já se foram e não tem como a gente mudar.

Quando recordamos de nossa infância, por exemplo, o que retorna para a nossa mente são lembranças que gostaríamos de reviver novamente ou que preferiríamos esquecer. Lembrar de um trauma não é algo bom, mas às vezes é preciso, para resolvê-lo e, também, para que ele não se repita em outros momentos da vida. Recordar acontecimentos felizes, como uma brincadeira ou uma boa amizade, também é necessário. Isso nos faz sentir saudades de algo.

E é exatamente sobre saudades que gostaria de pensar com vocês. Alguém saberia definir, em algumas palavras, o que entende pessoalmente por saudade? Por que refletir sobre a saudade? A saudade, assim como um trauma, não é algo ruim que sentimos em relação ao passado?

Em todas as nossas aulas, tanto as presenciais quanto esses diálogos que mantemos por cartas, procurei manter as nossas relações de forma muito franca e verdadeira. Vejo que vocês também fazem isso, e podem acreditar, eu me sinto muito grato por isso. Segredinho nosso, vou chamá-lo de segredo número 1, eu não sei responder essas perguntas sobre saudade.

Como assim professor? Não sabe? Não sei! E agora entra o nosso segredo número 2... eu não sei responder todas as perguntas que faço pra vocês. Não sei respondê-las e sinto orgulho de não saber. Por um princípio muito básico. Pergunto o que não sei, se já sei, não preciso perguntar. E se, concordando o que já falamos sobre Sócrates, só sei que nada sei tenho em mim todas as perguntas do mundo.

Talvez vocês possam estar questionando... mas professor, então toda vez que perguntamos algo para o senhor, as coisas que falou, o senhor não sabia? A isso respondo como sempre respondi, de fato não sabia, mas desconfiava que eram certas. E se desconfiava que eram certas também desconfiava que eram erradas.

E é justamente aí que entra uma característica intimamente ligada com os filósofos e com a Filosofia. Um professor de Filosofia, minimamente pensante, não ensina a responder, mas a questionar. Isso o impede de responder a algo? Evidentemente que não, contudo, a arte filosófica está em questionar.

Todas perguntas e as respostas são filhas de seu tempo histórico e das relações econômicas e ideológicas que determinado período da história apresenta. Por isso, são legítimas e as pessoas usam sua capacidade racional para refazer perguntas e repostas em tempos diferentes.

Então, repetindo as perguntas, alguém saberia definir, em algumas palavras, o que entende pessoalmente por saudade? Por que refletir sobre a saudade? A saudade, assim como um trauma, não é algo ruim que sentimos em relação ao passado? Acrescentando mais uma. Vocês sentirão saudades das coisas que estão acontecendo hoje? Se acreditarem que sim, do que vocês acham que terão saudades?

Vou propor um exercício filosófico, desde já opcional vocês façam se quiserem, que pergunta, ou perguntas, vocês gostariam de fazer?

 

Saudações filosóficas.

Prof. Ulisses


Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1bLRyR_4UD0e2dDBKRdmktmRR6qgUje3h/view?usp=sharing

Assis, 16 de junho de 2021.

                                      Título: Mito da Caverna (2021). Autor: Gabriel Serodio Assis, 16 de junho de 2021. Queridos alunos, Vo...