quarta-feira, 16 de junho de 2021

Assis, 16 de junho de 2021.

 

                                    Título: Mito da Caverna (2021). Autor: Gabriel Serodio


Assis, 16 de junho de 2021.

Queridos alunos,

Vocês estão bem? E as coisas como vão? Se cuidando contra a pandemia? Temos que manter a atenção sempre em alta e, nunca é demais refletir, apenas voltem para as aulas presenciais depois de passados 21 dias que tomarem a segunda dose da vacina. Vamos tomando todos os cuidados, o vírus está à solta, e não deem ouvidos para o jumento da República. Usem máscara!

Nossa conversa de hoje ainda será sobre o filósofo Platão. Em suas considerações sobre política, de uma forma muito organizada, ele propõe que a administração do governo deve refletir, espelhar, a organização da alma. Para ele, a divisão da cidade deve ser como a divisão da alma. Vejamos como Platão faz essas divisões:

PARTES DA ALMA

PARTES DA POLÍTICA.

RACIONAL: (cérebro) comanda as emoções e as sensações.

GOVERNO: (filósofo) comanda e administra a cidade-estado.

EMOCIONAL: (coração) domina os sentimentos. É comandada pela racional e ajuda a racional a controlar a sensitiva.

DEFESA: (exército/polícia) controla a produção material. É inferior ao governo e o ajuda a dominar a agricultura.

SENSITIVA (púbis):é a parte da alma que sente necessidades materiais – frio, calor, fome, desejo sexual, dor, prazer.

AGRICULTURA: (camponeses/artesãos) é controlada pelo governo e pela defesa. Supre as necessidades materiais da cidade estado – alimentação, utensílios, construção de casa.

 

Reparem que, como discutimos na última carta, essa ordenação é algo IDEAL para Platão, ou seja, as pessoas individualmente deveriam prezar pelo equilíbrio de suas almas e a administração da cidade fazer o mesmo com o governo. Por isso, Platão é conhecido como idealista. Um filósofo idealista é aquele que cria um pensamento filosófico e quer que a realidade se adapte à ele.

Platão afirmou que é papel do estado educar as pessoas para melhor se dedicarem à parte da política que lhe seria mais adequada. Dos 0 (zero) aos 20 anos, se formariam os agricultores; dos 20 aos 30 anos, os militares; dos 30 aos 50 anos os governantes (filósofos). Esse regime político idealizado chama-se sofocracia (o poder dos sábios).

A filosofia de Platão tenta perseverar em um equilíbrio racional. Evita as contradições da vida e marca sua impressão digital em todos os ramos do saber em que o filósofo manifesta seus raciocínios. Essa “tatuagem” platônica que podemos perceber nas suas argumentações, pode ser entendida sem sombras de dúvidas, no seu idealismo.

No famoso “mito da caverna”, alegoria usada por Platão para fazer a diferença entre mundo sensível e mundo inteligível (conceitos da última carta, lembram?), o idealismo platônico ganha formas dramáticas. Muitos historiadores dizem que Platão se inspirou na morte de Sócrates para elaborar essa exposição.

No livro República, Platão coloca como se Sócrates estivesse narrando o mito. Pede para imaginar alguns prisioneiros acorrentados em uma caverna. Esses apenas conheciam as sombras indefinidas das coisas que se projetavam na parede.

Um deles consegue se libertar das correntes e percebe que as sombras eram apenas vestígios ruins da realidade verdadeira. Ao voltar para a caverna e falar da realidade para os outros presos é julgado como louco e, ao propor a liberdade, inicia-se uma revolta em que assassinam o portador das novas ideias.

Assim, o mundo sensível é o das sombras e repleto de enganos. As verdades ideais seriam aquelas que o filósofo consegue identificar, sobretudo quando se liberta da prisão que o obriga a apenas a ver as coisas de uma maneira única.

O pensamento de Platão passa por muitos temas que são importantes para o convívio cotidiano. Ele fala sobre política, economia, educação, conhecimento, amor, enfim... de vários aspectos das relações humanas em vida comunitária.

E vocês? Acham que a vida deve ser idealizada para depois esses pensamentos serem aplicados nas relações concretas? Concordam com o idealismo de Platão? Quais seriam as “correntes” atuais que nos prendem a somente uma forma de ver o mundo?

 

Saudações filosóficas.

 

Prof. Ulisses.


Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/11_aap5B4CGOMJOrtz45JuGi9KPVKEyXu/view?usp=sharing


quarta-feira, 9 de junho de 2021

Assis, 9 de junho de 2021.

 

                              Título: Platão no céu (2021). Autor: Gabriel Serodio


Assis, 6 de junho de 2021.

Queridos alunos.

Olá! Como estamos? Sigam as orientações de saúde coletiva. Apenas voltem para as atividades escolares depois que estiverem todos vacinados. Em caso de precisarem de algum auxílio que a escola possa ajudar, peçam para que algum responsável, ou vocês mesmos, se comuniquem com os gestores por meio da internet ou por telefone.  

Por enquanto, o que temos a fazer é manter o máximo de distanciamento presencial possível. Em tempos de contágio viral de dimensão planetária, as maiores provas de amor não são abraços e proximidades, mas o distanciamento físico sem perder o contato humano. A preocupação humanitária pode se realizar por uma mensagem, áudio, vídeo, telefonema, enfim... Não relaxemos porque a situação é muito grave.

O interessante que podemos destacar aqui, sobretudo com isso de amores que devem ser mantidos à distância, é o do famoso amor platônico. Vocês já ouviram essa expressão?

Amor platônico é aquele idealizado e não acontece na prática. Nessa situação, quem está apaixonado concebe apenas nas suas próprias ideias a pessoa amada, faz projetos de futuro e nem sequer se declara. Os motivos para não assumir são vários, na maioria das vezes, passa pelo medo da rejeição e pela vergonha. Isso é muito mais comum do que podemos imaginar.

A origem desse conceito de amor, do ponto de vista filosófico, são os pensamentos de um pensador chamado Platão (428/427 – 347 a.C.). Esse filósofo, que acredito que muitos já ouviram falar alguma coisa, foi um dos mais conhecidos da Grécia Antiga. Sua filosofia teve uma influência decisiva para a formação da cultura Ocidental.

Seu nome verdadeiro era Arístocles. Ganhou o apelido de Platão por ter os ombros grandes e largos, ou seja, em virtude de sua estatura física. Platão era filho da aristocracia escravocrata de Atenas. Desejava se formar como político para poder melhor defender sua classe social.

Iniciou seus estudos filosóficos com um pensador chamado Crátilo, mas aos vinte anos de idade, passou a ser seguidor e discípulo de Sócrates. No ano de 403 a.C., quando a aristocracia retomou o poder político em Atenas, dois parentes seus Cármides e Crítias conseguiram altos cargos nesse governo oligárquico. Nesse período, Platão passou a exercer uma profunda influência política.

Alguns anos mais tarde, os democratas retomaram o poder, e uma das medidas que fizeram foi processar Sócrates (que já era professor de Platão), o que ocasionou a condenação de morte de seu mestre. Depois desse acontecimento, Platão realizou algumas viagens e se estabeleceu fora de Atenas, afinal, seus inimigos democratas estavam no poder.

Nessas viagens, Platão passou por diversas experiências marcantes, o que fez muita diferença na sua forma de pensar. Quando esteve na Sicília, tentou fazer um acordo com o governo local para poder implementar as suas ideias de governo. Em uma reviravolta no jogo político foi vendido como escravo para um espartano. Depois de uns amigos juntarem dinheiro acabou sendo resgatado e teve novamente sua liberdade.

De volta à cidade de Atenas, fundou a Academia em um ginásio que estava situado em um local que rendia homenagens ao heroi Academos. Começou a ensinar seu pensamento filosófico de maneira mais sistematizada para quem quisesse se instruir em sua escola.

Sua Teoria do Conhecimento, área da Filosofia que busca os fundamentos do conhecimento verdadeiro, dividia a realidade em dois mundos. O mundo sensível ou material e o mundo inteligível ou das ideias.

Para Platão, o mundo sensível ou material, é esse que nós vivemos. Cheio de imperfeições, de injustiças, em que tudo muda o tempo todo e por isso nada pode ser conhecido. Ele é uma cópia imperfeita, feita por um artesão que nem sempre está inspirado, do mundo inteligível ou das ideias.

Esse mundo inteligível ou das ideias é uma realidade verdadeira e por isso superior. Nossa alma, antes de nascer, teria visto as ideias perfeitas de justiça, de bondade e de beleza. Nosso corpo, aqui no mundo material, seria uma prisão para a alma por impedir ela de se libertar e conhecer as ideias verdadeiras.

Platão, embora o mundo material seja imperfeito e desprezível, encontra uma maneira das pessoas se libertarem da ignorância que por aqui predomina.

Através do abandono dos prazeres carnais e do corpo, o filósofo consegue por meio da reflexão e do método de Sócrates (dialético), se lembrar das ideias que sua alma viu antes de seu corpo nascer e aprisioná-la. Platão chama isso de Teoria da Reminiscência. A palavra reminiscência quer dizer, aproximadamente, lembrança.

Agora entendem a razão do amor platônico ser o amor idealizado? Aquele amor que a pessoa apaixonada idealiza e não coloca em prática só é perfeito por não ter a prática material. Não há o convívio, as relações e todas as coisas que a relação material com o mundo nos possibilita.

As coisas no papel ou na cabeça da gente são perfeitas. Dar o passo para a realidade material é as vezes tão complicado que Platão, em sua filosofia, nem recomenda que isso seja realizado. Por isso é difícil isolar-se do mundo em uma pandemia, para que isso pudesse ser possível, era necessário que tivéssemos o governo ideal que distribuísse um auxílio emergencial por mais de dois anos em torno de R$ 3.000,00.

Como não temos o governo ideal o mais perto do ideal possível é que as pessoas assumam o governo do Estado e sejamos nós nosso próprio governo.

Na próxima carta vou falar um pouquinho com vocês sobre o mito da caverna de Platão, que ilustra essa concepção de mundo sensível e mundo inteligível, e como a alma e a política são divididas pelo filósofo.

O que acharam das viagens do Platão?


Saudações filosóficas.


Prof. Ulisses.


Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/12IHXFB1drX4Jo-CCptIwXRSWbI99qzKB/view?usp=sharing


segunda-feira, 31 de maio de 2021

Assis, 31 de maio de 2021.

                             Título: A Luta do Povo Negro (2021). Autor Gabriel Serodio.
 

Assis, 13 de maio de 2021

Queridos alunos.

Tudo bem com vocês? Estão se cuidando e estudando? Alguma necessidade material que eu possa ajudar? Espero que estejam com as coisas caminhando satisfatoriamente e, qualquer coisa diferente, podem me avisar. Sem constrangimento.

Estamos, no dia em que escrevo essa carta para vocês, celebrando um dia de luta muito importante para os negros brasileiros e a classe trabalhadora em geral. Há 133 anos, a nação negra das Américas, conseguia a abolição da escravatura. Isso depois de muita luta, trabalho, morte e transpiração do povo negro.

A força de mobilização do povo negro é tamanha que, um ano após conseguirem deslegitimar a escravidão, também derrubaram o império brasileiro. A partir de 1889, com a Instauração da República, a família Orleans e Bragança foi para o lugar mais adequado aos seus pensamentos e políticas de escravidão: o lixo da História.

Graças à luta dos negros deixamos de ser império para nos transformarmos em República.

Na Filosofia, a escravidão foi respaldada por muitos pensadores e defensores que ajudaram que ela permanecesse por muito tempo como uma doutrina apoiada em leis e regulamentos dos Estados e de Nações. Na Antiguidade grega, um de seus maiores expoentes foi o filósofo Sócrates.

Esse pensador começou sua atividade filosófica como organizador de grupos políticos que lutavam pela volta do regime aristocrático em Atenas. Essa cidade-estado, no período da vida de Sócrates, tinha como orientação política a democracia. Com todos os limites de acesso que os escravos tinham aos direitos de cidadania, a democracia grega ainda era muito mais participativa do que a aristocracia. Sócrates era um ardoroso militante pela causa aristocrática.

Ainda assim, sua contribuição para a Filosofia, acabou sendo ao longo do tempo muito valiosa. Não por sua defesa da escravidão, mas pela forma como ensinava as pessoas a questionar. Como estava interessado em questionar a democracia grega, era interessante que ensinasse algumas técnicas de questionamento livre, o que ele chamou de ironia.

A palavra ironia, em grego quer dizer arte de questionar ou dissimulação, que se orienta em dizer o contrário daquilo que se quer expressar. Para provocar as pessoas ao pensamento Sócrates dizia o oposto do que queria dizer. Isso fazia com que elas, por meio da contestação, ao se manifestarem contrariamente fizessem e pensassem aquilo o que ele esperava delas. Atualmente, os psicólogos chamam a ironia de psicologia inversa.

Depois desse diálogo irônico, em que Sócrates buscava trazer para a consciência das pessoas as ideias que seriam verdadeiras, o ato dessas ideias se tornarem conscientes ele chamava de maiêutica. Essa palavra grega quer dizer trazer à luz, como as parteiras fazem com as crianças. Para Sócrates, essas seriam as ideias verdadeiras.

Assim, o conhecimento verdadeiro seria o conhecimento de si mesmo, e não o das relações sociais, econômicas e políticas. As ideias não seriam fruto das relações sociais, mas de origem divina que repousam nas almas das pessoas. Isso faz de Sócrates um idealista.

Dessa forma, Sócrates questionava os sofistas. Segundo ele, esses filósofos ensinavam a argumentação sem se preocuparem com a verdade. Considerava os sofistas como enganadores, que orientavam as pessoas mentirem, em nome de um interesse material.

Esse pensamento socrático é perigoso, pois questiona um fundamento básico da democracia que é o diálogo entre duas partes que estão em conflito. O conhecimento de si mesmo, sem se relacionar com o da sociedade e das pessoas que nos cercam, pode conduzir toda uma comunidade para uma ditadura. Quem olha somente para si mesmo não vê os outros.

Contudo, Sócrates foi vítima de uma grande injustiça. Por ensinar ironia e maiêutica em praça pública para os jovens e quem mais quisesse ouvi-lo foi acusado, sem fundamento e nem provas reais, de corrupção da juventude e de blasfêmia contra os deuses do Estado. Seria mais justa a acusação de defensor da tirania dos reis e ditadores.

Recusou ser exilado em outra cidade, e assim, condenado a morte por envenenamento de cicuta.

Embora as raízes do pensamento de Sócrates sejam politicamente favoráveis aos nobres e grandes ricos de Atenas, de uma maneira geral, sua Filosofia contribuiu muito para o desenvolvimento racional das ciências. Seus métodos irônicos e alguns princípios de coerência entre pensamento, discurso e vida; foram e ainda são muito importantes para o desenvolvimento filosófico e científico.

E vocês conhecem a si mesmos? O conhecimento que tem de si mesmos é aplicável para outras pessoas?

 

Saudações filosóficas.

Prof. Ulisses.


Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/17sHMC68wXO8rrEbV7LtzvRV3gylZpkMw/view?usp=sharing

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Assis, 10 de maio de 2021


                               Título: Os sofistas (2021). Autor: Gabriel Serodio.

                 




 Assis, 10 de maio de 2021.

Queridos alunos.


        Vocês estão bem? Como vão as coisas? A luta pela sobrevivência é constante, e em tempos de pandemia que se agrava cada dia mais, passa a ser uma grande vitória minuto a minuto. Que estejamos sempre dispostos a exigir os nossos direitos mínimos, no caso, o de uma vacinação em massa.

Hoje nós vamos conversar um pouco sobre os sofistas. Esses filósofos, que começaram a fazer os debates ainda lá na Antiguidade grega, eram professores. A tradição sofista, de uma maneira geral, ensina a arte de argumentar de maneira convincente. Tal ciência ficou mundialmente conhecida como retórica.

É importante nós entendermos a retórica como uma grande contribuição que os sofistas deixaram para a sociedade. O objetivo único da retórica é o convencimento pelo discurso, que pode ser desde uma fala (pública ou para uma pessoa) até um texto ou um filme, ou seja, o seu valor de verdade se coloca na seguinte frase. A retórica verdadeira é aquela que te convence, a falsa, é aquela que tenta te convencer, mas não convence.

Nos dias atuais, é muito comum se observarmos bem, diversas profissões que precisam de técnicas de retórica para se estabelecerem. Os vendedores, os advogados, os juízes, os professores, os publicitários e até mesmo a indústria cultural usam técnicas de convencimento para fazer com que as pessoas acreditem e comprem o que estão falando.

Imaginem qualquer uma das profissões que citei no parágrafo anterior. Se esses profissionais não souberem argumentar, por via de uma fala, de uma apresentação e até mesmo na forma de se vestirem; não conseguirão exercer sua atividade com qualidade.

Ninguém quer ver um professor, um advogado, um promotor, o Gusttavo Lima ou a Anitta, falando mal ou vestido fora da moda. Dependendo da profissão, estrategicamente, estar pouco vestido ou seminu é um poderoso e sedutor argumento de retórica.  

Na Antiguidade, os sofistas, foram considerados os primeiros professores e filósofos que ensinavam a retórica. Andavam entre as cidades-estados situadas na Grécia Antiga para ensinar os filhos dos ricos a arte de bem argumentar, pois eram esses que tinham dinheiro para pagarem suas aulas.

Entre os séculos VI e V a.C., os sofistas exerciam suas atividades educativas com grande intensidade. As condições históricas que possibilitaram esse auge dos sofistas se demonstram na forma política que a maioria das cidades-estados apresentavam.

Todos os cidadãos tinham direito à voz, ou seja, podiam escolher sobre os destinos da cidade. Desde resolver um problema comercial e até votarem sobre novas leis. Decidiam se o Exército local iria ou não para uma guerra. Parece uma democracia perfeita, né?

Contudo não era bem assim, quem tinha cidadania eram apenas os homens, livres e proprietários de terra. Assim, as mulheres, as crianças e os escravos não eram nem considerados cidadãos, mas propriedade de algum cidadão. As mulheres eram propriedade do pai ou do marido, na falta de um dos dois, do irmão mais ou tio mais velho. Os escravos propriedade dos senhores de terra. As crianças propriedades dos pais, no caso, do pai homem (em grego, patéras). Daí, a palavra paternalismo.

Dessa forma, apenas os filhos homens dos grandes ricos e proprietários de terras eram educados pelos filósofos sofistas. Aprendiam a retórica, como uma habilidade de defender publicamente seus interesses, e exercer a divina democracia entre os iguais.

Assim, a retórica era um exercício de se ter habilidade de convencer pelo discurso, o que na prática se resumia em expor um argumento com a finalidade prática (pragmática) de fazer ouvir e impor sua vontade aos outros. Protágoras de Abdera, grande sofista da Antiguidade, sintetizou esse pensamento em um princípio chamado Homo Mensura – o homem é a medida de todas as coisas.

Para Protágoras só é válido o pensamento que expressa a vontade do homem que o expõe de modo convincente. Esse homem é bem definido. Ele é do sexo masculino, é rico e é livre. Portanto, esse ser que é a medida de todas as coisas têm sua raiz econômica e social.

Górgias de Leontini, outro sofista famoso da Antiguidade, elaborou uma série de argumentos que tentam justificar a necessidade da retórica. Ele pensa da seguinte maneira. A verdade não existe, se existisse não poderia ser conhecida, se fosse conhecida não poderia ser comunicada. Dessa maneira, acaba justificando a necessidade da retórica e dos sofistas para ensiná-la, afinal, se não podemos conhecer a verdade o que prevalece é um acordo entre as pessoas.

Para concluir, vimos que a retórica é importante na sociedade tanto antiga como atual e que os filósofos sofistas eram professores de retórica. Ela foi importante para a consolidação da democracia grega, por ensinar a arte da argumentação para uma elite agrária. Os filósofos sofistas, como Protágoras e Górgias, acreditavam no poder dos acordos entre os homens por meio da argumentação. Afinal, viviam do ensino da retórica e, por isso, não acreditavam na verdade absoluta.

E vocês o que pensam? É importante saber argumentar? Conseguem imaginar mais profissões que usam a retórica na atualidade?

 

Saudações filosóficas.

Prof. Ulisses.     


Áudio disponível em:
https://drive.google.com/file/d/1eF5YYnkhTHb1fmAqmoMdUFOZp73iASNZ/view?usp=sharing

domingo, 18 de abril de 2021

Assis, 18 de abril de 2021.

       Título: Fidel Castro - o soldado das ideias (2021). Autor: Gabriel Serodio 
 



    Assis, 15 de abril de 2021.

    Queridos alunos.

Como vão as coisas? Estão bem? Espero que estejam se cuidando e tomando as medidas necessárias de saúde para protegerem a si mesmos e aos outros. Afinal, se a vacinação continuar no ritmo que está, a população toda será vacinada no prazo de se bobear uma década. Atenção e pressão!

Fiquei muito satisfeito com a recepção em relação à última carta. Aquela que conversamos um pouco sobre os filósofos pré-socráticos, lembram? Fui inteligentemente questionado por alguns que me perguntaram o porquê de utilizarmos a mesma carta tanto para falar de Sociologia quanto de Filosofia. Só então percebi que faltava uma explicação para isso. E é sobre isso que vamos conversar hoje, para nas próximas, podermos retomar alguns conteúdos.

Como todo bom filósofo, em vez de responder a um problema, vou aumentá-lo com a intenção de que se tenha uma leitura mais aberta da situação. Em nossa escola, como na maioria das escolas de Ensino Médio do Brasil, não temos professores especializados em muitas disciplinas que lecionam com vocês.

Nesse caso, minha formação é em Filosofia, ou seja, não sou especializado em Sociologia. Para tampar o sol com a peneira, o Estado permite que na ausência de professores formados em uma disciplina outros professores da mesma área peguem aulas na matéria em que não tem um especialista disponível.

Como Filosofia e Sociologia são disciplinas de Ciências Humanas, na ausência de um professor de Sociologia, me foi possível ministrar essas aulas para vocês. Dessa forma, o fato de ter mais aulas na escola, facilita um melhor conhecimento sobre a realidade de vocês e de nosso bairro. Minimiza, precariamente, o fato de o Estado não cumprir com o seu papel contratando um professor especialista em Sociologia para assumir as aulas da escola.

Diante desse desafio, fiz uma opção de ensino para satisfazer essa dificuldade que se apresenta para nossa escola. A escolha foi passar o conteúdo de Filosofia para vocês, por ser a disciplina que possuo um conhecimento maior do que de Sociologia, mas quando proponho as atividades de Sociologia e de Filosofia, a forma de elaborá-las vai em acordo com o que cada disciplina exige.

Resumindo: faço questões filosóficas sobre esses conteúdos de Filosofia e faço questões sociológicas sobre os mesmos conteúdos de Filosofia.

Vou citar um exemplo. No primeiro bimestre do segundo ano, o Currículo do Estado de Sociologia, propõe trabalhar o conceito de aculturação. Na semana passada, vocês viram na carta sobre os pré-socráticos a importância de se estudar essa Filosofia atualmente, mesmo ela sendo criada na antiguidade grega. A questão que elaborei para essa série, definia o que era aculturação e se é ou não importante sermos aculturados no Brasil do século XXI com culturas antigas da Grécia Antiga.

Assim, os alunos do segundo ano aprenderam um conteúdo de Sociologia quando elaborei a questão, no caso o conceito de aculturação. Aplicaram esse conhecimento sociologicamente analisando uma matéria de Filosofia, os pré-socráticos. E o mesmo aconteceu quando elaborei as questões do primeiro e do terceiro ano do Ensino Médio.

Se vocês lembrarem na carta anterior, ou voltarem para dar uma relida nela, vão perceber que também trato os filósofos pré-socráticos como biólogos e químicos. Para Tales de Mileto, a água é o princípio (arché) do mundo. Hoje sabemos que sem água não há vida da forma como conhecemos, e quimicamente, a água é Hidrogênio e Oxigênio.

Então, meus queridos, quando escrevo cartas e conteúdos de Filosofia para a gente conversar elas podem ser abordadas por muitas disciplinas. Depende da forma como perguntamos. Torço para os professores de Língua Portuguesa não lerem nossas cartinhas, pois vão achar muitos erros e burradas desse aqui que tenta escrever. Contudo, ao lerem e me corrigirem a sugestão será aceita e termos uma carta melhor.

Para encerrar, vou fazer uma citação ao maior estadista do século XX, o cubano Fidel Castro. O povo cubano assumiu o poder político em Cuba no dia primeiro de janeiro de 1959 por via de um processo político chamado Revolução Cubana. No ano de 1961, conseguiram acabar com a analfabetismo. Atualmente, todos os alunos que concluem o ensino secundário têm acesso garantido e gratuito às Universidades em Cuba.

Por isso, dentre outras virtudes, Cuba hoje possui a medicina mais desenvolvida do mundo, a pandemia ela está controlada e estão na fase final da vacina Soberana 02. A produção dessa vacina será para a distribuição, além de Cuba, no Caribe e nas Américas

Castro, o soldado das ideias, pensava que não existe distinção entre ciências, humanas, exatas, biológicas, linguagens e todas as divisões. Toda ciência é humana e exata, é humana porque é feita por gente e exata porque é ciência, mas os professores de cada uma delas devem ser especialistas na área específica em que estão trabalhando.

Acham que toda ciência é humana e exata? Ou é preciso ter a divisão entre as ciências? É possível ter divisão entre as ciências e elas continuarem sendo humanas e exatas ao mesmo tempo?

 

Saudações filosóficas.

Prof. Ulisses.




domingo, 11 de abril de 2021

Assis, 11 de abril de 2021.


                               Título: Tales de Mileto (2021) Autor: Gabriel Serodio


Assis, 11 de abril de 2021.

Queridos alunos.

Tudo bem com vocês? Como passaram a última semana? Muitos trabalhos de final de bimestre? Se escondendo, na medida do possível, do vírus? Espero que estejam todos muito bem e ligados para os desafios que a sociedade anda nos massacrando por demais.

No ano de 2021, até a semana passada, estava me comunicando através de um canal de vídeos pela plataforma do YouTube. A partir dessa semana, pelo menos nos próximos períodos, retornaremos ao texto do blog e ao áudio.

Tomei essa decisão pelo seguinte motivo. Estou encontrando muitas dificuldades para gravar vídeos com a qualidade que é mínima para a divulgação. Não tenho, ainda, o domínio tecnológico para produzir conteúdo com qualidade técnica.

Estou me empenhando em cursos e estudos para poder gravar bons vídeos. Enquanto eles não estiverem concluídos prosseguiremos por aqui mesmo. Peço paciência e desculpas para vocês. E... vamos ao conteúdo!

Na semana passada, falamos sobre a importância de se ter tempo livre para a atividade científica e filosófica. Ele é fundamental, porque além de propiciar descanso, faz com que as pessoas tenham disposição para estudar. Vimos que o tempo livre, desde a Grécia Antiga, é um privilégio de classe, ou seja, os ricos têm tempo livre pra descansar e filosofar enquanto os pobres são materialmente forçados ao trabalho.

Hoje nós vamos ver sobre os Filósofos e a Filosofia pré-socrática. Esses pensadores, de uma maneira geral, estudam a natureza, em grego physis. Buscam a explicação dos fenômenos naturais como as chuvas, as secas, a ordem cosmos do universo em fundamentos naturais e argumentativos. Esses fundamentos, princípios, eles chamavam de arché.

Faço questão de citar os termos em grego, pois quando vocês forem avaliados em provas de concursos ou vestibulares, para os confundirem os organizadores desses exames usam as palavras em grego. Um perfeito método de exclusão.

Então, se atentem para isso, toda Filosofia pré-socrática foi produzida antes do Sócrates? N – A – O NÃO! Eles estudam a natureza physis. A medicina; a biologia; a química e outras disciplinas também estudam a natureza, portanto são ciências e seus cientistas também são pré-socráticos. Que fique bem determinado, a Filosofia pré-socrática é todo ramo do saber que estuda a natureza.

Os filósofos pré-socráticos da Antiguidade, de uma maneira geral, buscavam o princípio arché que seria o criador da ordem cosmos do universo. Justificavam esses princípios por meio da argumentação e da palavra logos ou pelas demonstrações concretas e materiais.

Tales de Mileto, o primeiro filósofo, matemático e astrônomo da Antiguidade na cultura grega, dizia que esse princípio arché era a água. Fundamentava esse pensamento afirmando que ela é presente no que é vivo e ausente no que é morto, pois tudo o que morre desidrata. Foi o primeiro astrônomo a prever um eclipse do sol. Suas observações têm um índice de acerto tão alto que foram confirmadas pela ciência atual, afinal, os biólogos atualmente afirmam que a condição básica da vida como conhecemos é a água. O que os químicos chamam de Hidrogênio e Oxigênio.

Anaximandro de Mileto, discípulo de Tales e notoriamente radicado na mesma cidade (Mileto), já dizia que o princípio arché é o ápeiron (infinito). Para ele a ordem cosmos do universo se dá por uma combinação de forças contrárias (quente e frio; seco e úmido). Tudo o que acaba volta para esse infinito.

Heráclito de Éfeso, por sua vez, afirma que o princípio arché é o fogo e a mudança. Para ele, uma pessoa não passa duas vezes no mesmo rio, pois quando ela tenta passar pela segunda vez nem o rio e nem ela mesma seriam mais os mesmos. A guerra é a mãe e a rainha de todas as coisas. A realidade e as pessoas apenas melhoram por meio de confrontos e polêmicas, pois elas geram a mistura e a síntese de ideias antigas formando novas práticas e pensamentos.

Jean-Pierre Vernant, grande historiador que estudou a Antiguidade grega, afirmou que as condições políticas e sociais que produziram a Filosofia pré-socrática foram a mudança da centralização da economia política dos reinos e castelos para o poder dos agricultores e comerciantes. Daí o mito não passou a forma única de se olhar para os fenômenos naturais, mas também a razão e a demonstração.

E vocês preferem a razão ou o mito? A ciência ou a fé? A fé na ciência ou a ciência na fé? Ou as duas coisas?

 

Saudações filosóficas.

 

Prof. Ulisses.


Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1PEEiT2U7IqCPYEuqdYFlr-wuUQoDC0Kv/view?usp=sharing

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Assis, 3 de dezembro de 2020.


Título: A Persistência da Memória (1931) Autor: Salvador Dali (1904 - 1989). Fonte Wikipédia.


Assis, 2 de dezembro de 2020.

Queridos alunos.

            Tudo bem com vocês? E as coisas como vão? Tudo nos conformes? Estão conseguindo fazer as atividades finais? Espero que estejam concluindo as tarefas escolares, porque é assim, ou a gente acaba com elas ou elas acabam com a gente.

            Essa é a última carta que envio esse ano. Não precisam sentir saudades e nem pedir para eu continuar, pois a partir do ano que vem, continuarei me comunicando por aqui e teremos algumas boas novidades. Já chegam as novidades ruins, não é?

            Na última carta conversamos um pouquinho sobre lógica. Nela fomos debatendo sobre o que é a lógica, pelo menos, do ponto de vista filosófico. Vimos que a lógica é um estudo que garante que um pensamento, uma fala, um texto ou um discurso sejam coerentes. A lógica é o que faz um argumento ser nítido, o que vai determinar se ele é falso ou verdadeiro, será o seu uso social.

            Hoje nós vamos fazer um balanço de como foi o ano de 2020, sobretudo, na perspectiva de um conceito muito importante para a lógica: a premissa. Premissa é toda afirmação que é ou verdadeira ou falsa. Exemplos: se eu falo que o satélite natural do Planeta Terra é a Lua, estou partindo de uma premissa verdadeira. Se eu afirmo que o Oceano que banha o litoral brasileiro é o Oceano Pacífico, estou dizendo uma premissa falsa.

            Na lógica somente se trabalha com premissas, sejam verdadeiras ou falsas, e jamais se forma um argumento coerente e lógico com hipóteses. Hipótese é tudo aquilo que se afirma sem ter a comprovação ou de sua verdade ou de sua falsidade. Por exemplo, alguém de vocês me afirma hoje que o Brasil vai ganhar a Copa de 2022 no Qatar. Isso é uma hipótese, porque hoje não temos como comprovar se essa afirmação é verdadeira ou falsa. Depois da disputa da Copa do Mundo de 2022, será uma premissa e verificaremos se verdadeira ou falsa, mas por enquanto, é só uma hipótese.

            Com essas informações entendidas, vamos olhar superficialmente como está sendo o ano de 2020. Tivemos algumas premissas que permanecem desastrosamente verdadeiras: muitas mortes pela pandemia; outras inúmeras por racismo (casos horrorosos que ganharam a imprensa e protestos justíssimos como o de George Floyd nos Estados Unidos e o de João Alberto no Brasil); assassinatos e agressões de mulheres e homossexuais fruto do machismo e uma opressão brutal contra os pobres, pois os poucos que conseguiram auxílio do governo federal foi de míseros 600 reais, abaixo do salário mínimo.

            Vivemos a sonhada hipótese de uma vacina para combater e nos imunizar da pandemia. Infelizmente, a vacina ainda é uma hipótese, no fim das contas, nenhuma foi ainda descartada como falsa e nem efetiva e comprovadamente verdadeira e eficaz contra o vírus.

            Uma experiência que se confirmou como premissa verdadeira, e acho que devemos ver como algo bom que esse ano nos ensinou, foi a de saber uma coisa muito concreta: pobre somente pode contar com outro pobre. Vimos durante o ano muitos exemplos de solidariedade, que podem perceber, era sempre um pobre ajudando outro pobre. Arrecadar cesta básica, levar ao hospital, fazer uma compra para um idoso. Não foi o poder público ou algum rico que fez isso. Sempre, na maioria das vezes, foi outro pobre.

            O ano foi difícil, continua difícil e pelo jeito vai terminar difícil para quem tiver a felicidade de concluir o ano. Somos sobreviventes, muitos dos nossos ficaram pelo caminho e é por eles e por nós que vamos continuar trabalhando e lutando para que as coisas melhorem.

            Gostariam de me mandar alguma premissa, seja verdadeira ou falsa, que não falei por aqui? Qual seria ela? Qual seria a diferença entre um desejo e uma hipótese? Desejo a todos vocês, a seus familiares e amigos um Feliz Natal e um ano de 2021 cheiro de felicidades e de premissas deliciosamente verdadeiras.

 

Saudações filosóficas.

Prof. Ulisses.


Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1ZzL3YSKM7UO2RGVBUsMcW6u2V8YCmRtv/view?usp=sharing


Assis, 16 de junho de 2021.

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