sexta-feira, 26 de junho de 2020

Assis, 25 de junho de 2020.

              O Banquete de Platão - 1873. Anselm Feuerbach (1829-1880). Fonte: Wikipédia.


Assis, 25 de junho de 2020.

Queridos alunos.

Com o mais profundo desejo de que vocês estejam bem, em todos os sentidos em que um ser humano possa estar bem, inicio mais uma carta. Sabemos que as coisas não andam fáceis ultimamente, contudo, estamos aqui para tentar fazer com que não fiquem tão difíceis.

Muitos tem me perguntado: “Professor. O senhor não vai passar nada? Nenhuma atividade para a gente?”. A resposta é que as atividades que estimulo e quero que vocês façam é a leitura desses textos que são enviados semanalmente. Para quem não tiver tempo ou disposição... vai o áudio. Simples assim!

Na última carta, em que refletimos sobre a questão do amor, disse que faria uma sequência sobre o tema. Recebi muitas sugestões e várias contribuições, que no final das contas, vão aparecer nessa e em todas as outras que nós debateremos sobre esse tão controverso ponto.

Na mitologia grega, que nos relata diversas histórias que muitos de vocês já conhecem, um dos deuses do amor é o Eros. Aliás, a palavra “erótico” tem essa origem... digamos assim.... mitológica. O filósofo Platão, no livro chamado “O Banquete”, nos descreve uma versão muito curiosa sobre o nascimento de Eros. Na verdade, a concepção.

Estava sendo celebrada uma festa em homenagem ao nascimento de Afrodite, também deusa do amor e da beleza, daí a origem da palavra afrodisíaco. Pênia, deusa da pobreza, (percebam que para os gregos até a pobreza tem uma deusa... que sacanagem!) foi mendigar na porta da festa, pois pobre nunca é convidado pra festa de chique de rico.

No final da festa, em que geralmente os que bebem mais já estão de porre, Poros, deus da astúcia e da riqueza, adormeceu travado de bêbado no grande jardim da casa. Pênia, a pobreza, se deitou com ele e acabaram por conceber um filho.

Eros, fruto dessa relação, por ter sido gerado no dia de homenagens à Afrodite, acabou se aproximando dela. Por isso o amor gosta daquilo que julga belo. Por ser filho da pobreza, sempre sente necessidade e a ausência daquilo que gosta, no caso, ama. Mas por também ser filho da astúcia, usa de todas as artimanhas para conseguir para si aquilo que ama.

Quando Platão analisa essa passagem mitológica, chega à conclusão que as pessoas amam tudo o que elas não tem, pois o que já é delas, não lhes causa necessidade. O pobre ama o dinheiro porque não tem. O rico ama o dinheiro por achar que tem pouco, quer sempre mais; sendo o amor filho da necessidade, da falta e da astúcia, nunca estará satisfeito.

Os deuses não podem amar, posto que eles tem tudo, por isso, são adorados independentemente da ordem mitológica ou religiosa. Os deuses não são filósofos, eles já tem toda a sabedoria, e o filósofo é o amante da sabedoria. O verdadeiro filósofo, ou a pessoa que gosta de conhecer as coisas que admira, deve se reconhecer como um burro, mas um burro que sabe que é burro e não quer mais ser burro. Afinal, ama a sabedoria daquilo que busca.

Dessa forma, o amor não é visto como um sentimento, mas um elo que liga os homens aos deuses. Que fique entendido, embora Platão seja religioso, essa afirmação pode ser traduzida nas seguintes palavras. O amor é a ponte que une alguém que sente uma ausência àquilo que lhe falta.

Assim, dentro desse pensamento divulgado por Platão, o amor é a carência daquilo que nos falta. Reparemos ao nosso lado, e até em nós mesmos, quanta coisa não temos e por isso as amamos. Necessidades básicas de sobrevivência. Alimentação. Moradia. Saúde. Trabalho. Questões pessoais e sentimentais. Enfim, por aí vai.

Tirem da cabeça que amor platônico é o amor idealizado ou o que não se realiza na prática. Amor platônico é a incessante busca pelo que não temos.

E vocês? Concordam com isso? Deixo um questionamento maliciosamente social e filosófico, qual seria uma característica genuinamente humana, o amor ou o ódio?

Saudações filosóficas

Prof. Ulisses.


Áudio do texto disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1UwutIVH7D6htWvsoYCER2tiuKoJtSS9M/view?usp=sharing


sexta-feira, 19 de junho de 2020

Assis, 18 de junho de 2020.

Assis, 18 de junho de 2020.

Queridos alunos.

Como podem perceber, ainda estamos separados em razão da interminável, e por enquanto mais mortal, epidemia de COVID-19. Por isso, as aulas e os trabalhos continuam chegando para vocês pela via digital. As nossas cartas, por sua vez, também são enviadas por essa mídia, mas são apenas uma opção de leitura e de escuta.

Vi alguns de vocês pelas ruas nos últimos dias, conversei pessoalmente com uns, e com outros recebi contatos particulares por meio do Whatsapp. Confesso que fiquei bastante emocionado com as palavras de incentivo e respeito, ditas em agradecimento pelas nossas cartas.

Nessa semana, quando comecei a preparar essas palavras que agora distribuo para vocês, pensei em desenvolver um tema de Filosofia, que chama a atenção das pessoas e que as movimentem em busca de algo melhor para elas. Com esse pensamento, entrei em uma página de internet e li diversas notícias sobre as manifestações contra o racismo, sobretudo, as revoltas contra o assassinato do negro norte americano George Floyd.

Diversas pessoas pelos Estados Unidos e pelo mundo se revoltaram contra o seu assassinato, que foi feito pelas forças policiais de sua cidade. Essas revoltas, tiveram gigantescas manifestações pelas ruas de Minneapolis e resultaram em um incêndio que destruiu a delegacia local. Enfim, não esperemos flores e processos judiciais contra uma violência dessa que os negros sofrem a milênios pelos quatro cantos do mundo.

Uma coisa me chamou a atenção. Qual é o fator central que mobiliza tantas pessoas, de maneira coletiva, a reagirem contra o racismo? À essa questão respondi que o excesso de opressão desperta, em algum momento, uma reação à altura. 

E se pensarmos, analisando o tanto que os negros são oprimidos por nossa sociedade, essa reação nem pode ser chamada de violenta. Violência é o que os negros sofreram, sofrem e sofrerão; ainda mais nesse ambiente em que as pessoas são discriminadas por sua classe social, cor de pele e orientação sexual.

Aí me surgiu outra pergunta, e a resposta dela foi a que motivou a escrever essa carta para vocês. Que sentimento move grandes grupos de pessoas a combaterem uma injustiça social, nesse caso, o racismo? Sabemos que o racismo é uma página sempre desgraçadamente atual em nossa cultura, ainda mais no Brasil que afirmo seguramente ser um dos países mais racistas do mundo (se não for o mais). Vide a execução do jovem negro carioca João Pedro com 70 tiros, dentro de sua casa, completamente desarmado e sem oferecer nenhuma resistência.

Então, a opressão contra os negros responde apenas parcialmente a causa da revolta. Essas revoltas já aconteceram aos milhares, mas pela nossa história ser escrita por uma elite branca, a maioria das pessoas não conhece nem 10% do total delas. O sentimento que empurra as pessoas a lutarem por uma vida e um mundo mais justo é o amor. 

O racismo também é um tema de Filosofia, mais próximo da Sociologia, pois essas duas disciplinas tratam de economia política. Ele estará presente nessas reflexões que faremos sobre o amor, entretanto, gostaria que algum professor ou estudante negro fizesse uma carta sobre ele. Não que um branco não possa fazer, mas gostaria de ouvir as vozes de quem sofre o racismo em sua pele.

Segundo Aristóteles, em um livro chamado Metafísica, os primeiros gregos que trabalharam o tema do amor como um sentimento que reúne as pessoas para avançar para algo melhor foram o poeta Hesíodo e o filósofo Parmênides. Nomes bonitos esses, não acham? Quando tiverem filhos, ou mais filhos, ficam essas três dicas de nomes: Aristóteles, Hesíodo e Parmênides. Kkkkkkkk!

E vocês? Acham que apenas o amor move as pessoas? O ódio também não move? Ou, como debatemos, somente o amor une as pessoas para buscar o melhor delas e muitas vezes de toda uma sociedade?


Saudações filosóficas.

Prof. Ulisses


PS: Ah! Ia mês esquecendo, o tema do amor continuará em nossas próximas cartas. Talvez eu intercale uma ou outra carta com outro tema, mas como ele é longo e temos muitos filósofos que o refletiram, reaparecerá novamente. Até a próxima!

sábado, 13 de junho de 2020

Assis, 12 de junho de 2020.

Assis, 12 de junho de 2020.
Queridos alunos.
Passamos por mais uma semana sem aulas presenciais. Vocês têm me surpreendido muito bem, pela dedicação que vêm demonstrando nas aulas on line que o Estado veicula pelo aplicativo do Centro de Mídias e pelo site You Tube. Sobretudo, não posso deixar de destacar, a receptividade e o carinho que me demonstram em virtude de nossas cartinhas sobre Filosofia. Meus parabéns! E obrigado...
Vocês estão bem? Conseguindo se virar nessa devastadora pandemia? Fiquem sabendo que, qualquer coisa, podem contar comigo. Se não conseguir ajudar da maneira mais adequada e suficiente, estarei disponível para pelo menos tentar amenizar ou encontrar alguém que ajude da melhor forma possível. 
Poucas pessoas sabem o quanto é difícil ter que assistir aulas em um período do dia, no outro fazer as tarefas que os professores pedem e ao mesmo tempo trabalhar e ter as responsabilidades que vocês têm. Repetindo, com medo de ser repetitivo, mas sendo repetitivo: podem contar comigo.
Hoje quero refletir nessa cartinha sobre a questão dos sonhos. Não estou falando das vontades, dos projetos e das necessidades que temos para nossas vidas, mas daquilo que acontece em nossas cabecinhas enquanto estamos dormindo e que, de vez em quando, lembramos depois que acordamos. Aquelas coisas que, contam histórias boas ou os chamados pesadelos, que a mente nos mostra no período do sono.
Os sonhos tem uma longa tradição na história do desenvolvimento humano. Várias pessoas afirmam que os sonhos nos alertam sobre os acontecimentos do futuro. Lembram do episódio bíblico do José do Egito quando ele interpretou um sonho do Faraó? O Faraó era o comandante supremo do governo do Egito, e com o auxílio da interpretação que o José fez do seu sonho, conseguiu salvar a população do Egito de uma grande seca e fome que castigou essa pátria por sete longos anos.
Há quem diga que os sonhos não antecipam o futuro, mas que manifestam em suas histórias algum medo, desejo ou trauma que a pessoa tem mal resolvida na sua mente. Esses medos, desejos e traumas podem ter ocorrido em qualquer parte da vida, desde quando bebê até quando o sonhador já tem uma idade em que se é consciente. Para quem pensa assim, o sonho é um alerta para a pessoa resolver isso que ficou mal resolvido em seu passado e ter uma vida mental mais tranquila.
Dessa forma, a interpretação do sonho não deve ser feita pelo José do Egito ou por alguma mente abençoada e iluminada, mas por você mesmo. Quem interpreta o que quer dizer seu sonho é você mesmo! Se você não conseguir interpretar, o fato de não conseguir interpretar já quer dizer muita coisa. Essa muita coisa é algo que você mesmo deve tentar descobrir. Como? Na qualidade de filósofos, cabe a nós mesmos buscarmos os auxílios corretos para que nós mesmos possamos interpretar os nossos sonhos.
O grande filósofo francês, René Descartes (o matemático que inventou a geometria analítica que vocês tanto adoram e estudam nas aulas de matemática do ensino médio), condicionou sua atividade filosófica pela interpretação que fez de três sonhos que teve em uma única noite. Isso mesmo! Três sonhos em uma única noite! Noites agitadas essas dos filósofos, não? No primeiro sonho ele está caminhando pela rua e um forte vento o empurra para a porta de uma Igreja. Ali aparece uma pessoa avisando ele que alguém teria um melão para lhe dar de presente. Descartes acorda assustado, com uma dor forte no lado esquerdo do peito e faz uma oração à Deus pedindo que lhe afaste todo pesadelo possível, rogando por uma boa noite de sono.
Depois de algumas horas, Descartes pega no sono novamente e tem o seu segundo sonho. Nesse ele imagina ouvir um forte estrondo de trovão e vê uma chuva de faíscas no seu quarto. Um pouco mais, digamos assim, duvidoso, o filósofo readormece novamente.
No terceiro sonho, Descartes está diante de uma mesa em que consegue identificar dois livros: um dicionário e um livro de poesia, cujo título é Corpus Poetarum. Ainda no sonho, lê nesse livro a questão: “Que caminho seguirei na vida?” e uma pessoa lhe mostra algumas poesias em que estão realçadas as palavras “sim” e “não”.
Nessa época, Descartes era um militar que estava em combate em diversas guerras do século XVII que arrasavam com os europeus pobres. Ele interpretou essa sequência de sonhos como um chamado de Deus para a busca da verdade por meio da Filosofia. A partir dessa sua interpretação, mudou completamente de vida dedicando-se à Filosofia realizando diversos avanços na reflexão filosófica e matemática.
E vocês têm sonhado? Sonham muito? Ou sonham pouco? Como vocês interpretam o significado de seus sonhos? Seja qual for o sentido que conseguem perceber nos sonhos, guardem para vocês mesmos e se esforcem por modificar as suas vidas para melhor. Na medida em que puderem ajudar os outros a melhorarem, também o façam, pois não podemos desistir dos valores coletivos dos seres humanos.
Saudações filosóficas.
Prof. Ulisses.

sábado, 6 de junho de 2020

Assis, 05 de junho de 2020

Assis. 5 de junho de 2020.
Queridos alunos,
Que durante esses dias tão complicados para nosso povo, em que agoniza e morre aos milhares sem um copo com água para amenizar suas dores, vocês estejam bem e tomando todos os cuidados possíveis no combate contra a pandemia de COVID-19. Nunca se esqueçam de cuidarem de vocês mesmos e do máximo de pessoas que conseguirem, pois quem cuida do pobre é o pobre mesmo. E todos nós não temos os recursos materiais suficientes para todas as nossas necessidades humanas.
Ultimamente, temos visto a preocupação e o medo, em escala mundial, com a morte. Ela, no entendimento de muitas pessoas, é o que dá sentido à vida. Se fossemos imortais, talvez por preguiça e comodidade, não teríamos o empenho em fazer as coisas da maneira mais correta possível, posto que haveria a eternidade toda para nos corrigir. Por isso, vale fazermos uma breve reflexão sobre a morte, com o amparo de nosso filósofo antigo já parcialmente conhecido: Sócrates. 
Na realidade, meus amigos, embora Sócrates tenha filosofado sobre a questão da morte, não vou falar sobre o que ele exatamente pensou, mas fazer uma reflexão sobre o seu assassinato. Isso mesmo! Sócrates foi brutalmente morto pelo governo da cidade-estado de Atenas. Como isso aconteceu? É exatamente nesse ponto que entra a nossa Filosofia.
Sócrates, na data de sua morte (399 a.C), contava com setenta anos e era um soldado aposentado sobrevivente da Guerra do Peloponeso (nome feio esse, não?). Seu salário de aposentado era muito curto, ou seja, desde a antiguidade os aposentados são desvalorizados pelo Estado. Isso nos permite dizer que Sócrates, como nós, também era pobre. Ainda assim, ensinava Filosofia gratuitamente, pois achava indigno ensinar os outros a pensar cobrando dinheiro.
Isso não quer, de maneira nenhuma, que Sócrates desvalorizava o dinheiro ou o seu ofício de Filósofo; mas sim que praticava o que pensava, afirmando que ricos e escravos devem ter o mesmo direito de acesso à educação filosófica. Acreditava que pela educação as pessoas teriam condições de melhorarem suas vidas, tanto do ponto de vista filosófico como do material.
Certo dia, alguns de seus colegas que filosofavam publicamente junto com ele, foram ao Oráculo de Delfos para perguntar quem era o homem mais sábio do mundo. Lá tiveram a resposta de que esse homem era justamente o Sócrates.  Esse Oráculo, queridos amigos, era um templo em que as pessoas faziam previsões para o futuro e respondiam as dúvidas e perguntas da população. Eram espécies de profetas, nos tempos passados; contudo, nos tempos atuais, essa posição foi tomada pelo site Google. É só perguntar que o Google responde na hora! Kkkkkkk.
Sócrates, que tinha como princípio o “Só sei que nada sei.”, não acreditou ser o homem mais sábio do mundo. Considerava que os sábios eram alguns escritores e militares, que ocupavam os cargos políticos de Atenas do seu tempo. No entanto, ao questionar essas pessoas perante o povo, elas mostraram serem verdadeiras antas. Aprendam uma coisa, só tem uma coisa que os burros não conhece: o seu limite. Nesse momento, Sócrates percebeu que era mais inteligente do que elas, pois na medida em que achavam serem sabichonas; o filósofo “sabia que nada sabia”. Essa foi a sua vantagem filosófica e o seu passaporte para a morte.
Depois dessa humilhação pública, armaram uma acusação falsa contra Sócrates. Foi julgado por corromper a juventude e blasfemar contra a religião. Em sua sentença, foi dito que ele ou era forçado a mudar de cidade e nunca mais voltar à Atenas ou teria que morrer. Como Sócrates se achava muito velho para ter que lutar pela sobrevivência em outro lugar, preferiu a morte. Sua execução foi por meio de um chá de cicuta, planta que se ingerida pelo ser humano causa um envenenamento mortal.
Qual foi o erro de Sócrates? Corromper a juventude? Blasfemar contra a religião? Não aceitar morar em outra cidade? Nada disso, meus amigos, afinal Sócrates não fez nada do que foi jogado na sua capivara. E se a vida é difícil para um idoso pobre em sua própria cidade, imaginem em outro lugar?
Sócrates não errou! Quem errou foram os outros. Sócrates questionou pessoas que eram ricas e boas em suas profissões. O problema, nessa organização econômica, social e política; é colocar pessoas ricas e profissionais bem sucedidas nos cargos de políticos. Político tem poder.
Não é por ser um bom escritor, que a pessoa será uma boa governante para ricos e pobres, ela já faz muito em escrever bem. Não é por ser uma boa médica, que a pessoa será uma boa política para ricos e pobres, ela já faz muito em medicar bem. Não é por ser um bom militar, que a pessoa será uma boa política para ricos e pobres, ela já faz algo em guerrear bem.
Sócrates questionou as pessoas certas, que estavam nos lugares certos, pois esses políticos estavam ali para perseguir e prender os pobres. Na antiguidade de Atenas, o bom político era aquele que tornava o rico mais rico, o pobre mais pobre e que matava qualquer pessoa que fizesse algo pelos pobres. Como Atenas era injusta nessa época, não acham?
Saudações filosóficas.
Prof. Ulisses.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Assis, 29 de maio de 2020

Assis, 29 de maio de 2020
Queridos alunos
Espero que essa carta encontre vocês com saúde e sem nenhuma outra necessidade humana. Como todos podem perceber, continuamos afastados das aulas presenciais, em virtude da luta pela sobrevivência que a humanidade está travando contra a pandemia de COVID-19, o que nos mantém ainda afastados fisicamente da escola. Por enquanto, nossa comunicação permanece exclusivamente digital.
No mais como como vocês estão? Como vai a vida? Como estão lidando com as tarefas escolares que os professores enviam como atividades domiciliares? Tenho a impressão que, de uma maneira geral, todas as nossas ações mais simples foram completamente modificadas nesses tempos de isolamento social. 
Estamos diante de uma realidade especial, pois vemos que pessoas doentes, recuperadas e mortas são contabilizadas numa matemática funerária em que os que se reestabelecem parecem terem sido agraciados pela sorte. Dessa forma, vemos como o povo é tratado pelas autoridades públicas.
A única medida que adotaram para combater essa pandemia, como é divulgado pela imprensa, foi o isolamento social. O princípio se pauta em diminuir o contato entre as pessoas para reduzir o contágio do vírus. Na realidade, nos isolamos na medida em que é possível, pois como bem disse Karl Marx, o ser humano é concretamente um ser social e por isso depende do outro. E assim vamos nos relacionando na luta pela sobrevivência.
Contudo, o fato de termos menos contatos físicos nos torna mais pensativos. Nossa mente viaja e se aventura pelos pensamentos mais variados. Muitas vezes se admira, ou até se desespera, dentro das inúmeras possibilidades que nossa cabeça pode pensar. Em resumo: a solidão nos torna um tanto mais pensadores e filósofos.
Aí surge novamente uma questão que a sociedade tenta resolver há no mínimo 2500 anos. Se o senhor professor está falando que a solidão nos torna mais pensadores e filósofos, o que é, afinal, a Filosofia?
Essa pergunta, como toda outra criada pela sociedade, tem uma resposta adequada para cada tempo. Como todo professor de Filosofia adora os gregos antigos, vou falar de um filósofo chamado Sócrates para ajudar-nos nesse problema. Embora ele esteja lá na antiguidade, nada nos impede de atualizar seus pensamentos em nosso tempo, desde que estejamos preocupados em dialogar com os nossos interesses reais.
De que maneira Sócrates, famoso mundialmente pela frase “Só sei que nada sei.”, poderia nos ajudar, já que ele mesmo sabe que não sabe de nada? Pode sim, pois a partir do momento em que ele reconheceu que não sabe de nada, acabou se dispondo a buscar saber e para isso se orientou em outro pensamento muito comum na antiguidade grega: “Conhece-te a ti mesmo”.
Agora é que são elas! Vocês conhecem a si mesmos? Sabem que reação podem praticar diante de uma grande injustiça? Como reagiriam ao presenciar um estupro ou pedofilia? Uma violência contra a mulher? Contra os negros? Contra a humanidade toda? Alguém aqui se considera em condições de realizar algum tipo de injustiça, seja ela pequena ou grande?
E como se comportariam em frente a uma coisa muito boa? Alguém que abre mão de todos os seus interesses individuais e familiares para dedicar-se ao bem da humanidade? Quando veem outra pessoa sofrendo de alguma dor, sentem em sua própria carne a mesma dor? 
Sócrates nos fala de uma Filosofia que não se limita em somente pensar, mas em pensar e praticar. “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os deuses”. Vamos nessa jornada? Tentaremos então nos conhecer? Ou envelheceremos tentando? 
Saudações filosóficas.

Prof. Ulisses.

Assis, 19 de maio de 2020.

Assis, 19 de maio de 2020.

Queridas (os) alunas (os).
Venho por meio desta carta conversar um pouquinho com vocês. Em virtude da pandemia, já estamos há alguns meses sem nos ver, o que acredito ainda se estenderá por mais algum tempinho. Não precisam ficar com saudades e nem sentir falta desse professor inteligente, bonito e humilde que vocês tem a sorte de contar na escola.
As aulas estão sendo enviadas para vocês por meio digital. Em nosso caso específico, pelo aplicativo e por um canal no site You Tube. Até agora, nenhuma novidade, posto que estão sendo assessorados pelos professores aqui pelo aplicativo do WhatssApp. Contudo, tomei a liberdade de fazer uma proposta diferente, segredinho nosso viu, não contem para a direção e nem para a coordenação... deixa eles saberem por aqui mesmo hehehehe.
O ensino da Filosofia pressupõe, como atividade de pensamento, princípios básicos de civilidade como a liberdade de expressão, de escolha e o respeito à todas as formas de raciocínio. Dessa forma, a minha proposta é a seguinte, de vez em quando eu mando uma carta para vocês por aqui. Vocês tem toda a liberdade de lê-las ou não. Isso vai depender da liberdade de escolha de vocês.
Nessas cartas, contarei a vocês casos e histórias da Filosofia e dos filósofos. Esse modo de comunicação para ensinar Filosofia não é tão novo assim, posto que muitos filósofos já ensinaram por meio de cartas e também se correspondiam por meio delas. Há muitas que são famosas na História da Filosofia.
Dessa forma, não tenho a intenção de estar “tapando o buraco” das aulas presenciais por meio de cartas. Nada substitui aula presencial, nem aplicativo e muito menos aula on-line. A intenção é ir praticando de um meio diverso o ensino da Filosofia. Ensinar Filosofia e estudar o seu ensino é algo que venho fazendo nos últimos dezesseis anos.
O grande diferencial que pretendo utilizar para facilitar nossa comunicação é também mandar um áudio conjuntamente com a carta. Muitos de vocês preferem uma versão falada do que escrita. O hábito da leitura seria um desenvolvimento a ser feito paralelamente com outras disciplinas, que estão mais qualificadas para trabalhar mais corretamente essa habilidade.
Vou me despedindo, por enquanto, na ânsia de um até logo, tanto por meio das cartas quanto pessoalmente. Afinal, já chega de tanta miséria e morte que esse vírus, com a colaboração de incontáveis descasos para com a saúde pública, espalhou pelo mundo.
Saudações Filosóficas.
Prof. Ulisses.

Assis, 16 de junho de 2021.

                                      Título: Mito da Caverna (2021). Autor: Gabriel Serodio Assis, 16 de junho de 2021. Queridos alunos, Vo...