sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Assis, 23 de outubro de 2020


                                                A Vaca. Fonte: wikipédia


Assis, 22 de outubro de 2020.

Queridos alunos

E aí? Tudo bem? Terminando as atividades do bimestre? E no mais como estão? Trabalho? Família? Espero que as coisas estejam indo bem, ou pelo menos o melhor possível, pois dentro da nossa realidade todo cuidado é pouco e pior do que está pode ficar.

Hoje eu gostaria de conversar com vocês sobre algo muito importante para a saúde pública. Em tempos de pandemia, em que milhares morrem e nos acostumamos com dados absurdos de óbitos nos noticiários, um dos desejos mais populares é a criação de uma vacina. E é justamente sobre isso que vamos falar, com um olhar mais filosófico, sobre a da história da vacina.

A Europa, no final do século XVIII, passava por uma grave epidemia de varíola. Essa doença, transmitida por vírus, acompanha a humanidade desde a antiguidade e somente no século XX foi considerada erradicada. Causa febre, dores de cabeça, dores pelo corpo, feridas e bolhas por toda a pele e em seu tipo mais grave pode até matar.

No ano de 1796, o médico inglês Edward Jenner, observou que os camponeses responsáveis por tirar leite de vaca não pegavam varíola. Por terem contato direto com o animal, todos eles tinham contraído varíola bovina, e essa modalidade da doença não é mortal para os seres humanos.

Isso fez com que fizesse um experimento. Pegou o pus de Sarah Nelmes, que tinha varíola bovina, e o injetou em um menino de 8 anos, chamado James Phipps. O garoto pegou apenas uma leve infecção e em 10 dias estava recuperado. Depois disso, Jenner inoculou no garoto o vírus da varíola humana retirado de outra pessoa e, surpreendentemente, o menino não pegou varíola.

A partir disso, através de um contato com um tipo leve de vírus ou com um vírus desativado, a medicina começou a desenvolver vacinas para combatê-los. Todas as vacinas que tomamos faz com que a gente tenha um contato controlado com o vírus. Isso desperta as defesas de nosso organismo, fato biológico de fundamental relevância, caso ele tenha seja infectado pelo vírus que nos faria doentes.

Por isso, a palavra vacina tem origem no termo vaccinus que significa “derivado da vaca”. De início, os médicos em geral foram muito resistentes com essa nova técnica de combate aos vírus. Alguns religiosos diziam que isso era a degeneração da raça humana por meio do que chamavam de “vacalização” ou “minotaurização”. 

Essa resistência demorou muito tempo para ser superada. No Brasil, por exemplo, tivemos um episódio político chamado “A Revolta da Vacina”. Em 1904 médico sanitarista Oswaldo Cruz, com a intenção de controlar uma epidemia de varíola no Brasil, articulou com o governo a obrigatoriedade da vacina. Militares, republicanos e monarquistas, ou seja, opositores do governo oligárquico de Rodrigues Alves, conjuntamente a população cansada de ser massacrada, se colocaram contra. Foram quase duas semanas de confrontos armados do exército nas ruas do Rio de Janeiro, entre revoltosos e tropas governamentais. Verdadeiras cenas de guerra.

O prejuízo foi catastrófico para toda a sociedade. Poucas pessoas se vacinaram, e em 1908, o Rio de Janeiro passou pela mais terrível epidemia de varíola já vista em toda a sua existência. Aí a reação da população foi inversa. A população correu para ser vacinada.

Disso, queridos alunos, podemos fazer algumas reflexões. Na atualidade as vacinas são testadas em diversos níveis até chegar para a população. Muitas instituições científicas acompanham esses testes, e para uma vacina ser aprovada para uso em seres humanos em larga escala, ela já passou por uma sequência de procedimentos seguros que podemos confiar. Isso não nos impede de analisar e compreender o ambiente social em que uma vacina é elaborada e distribuída pelo poder público.

A história está aí para que possamos pensar sobre o que aconteceu, respeitando os fatos passados, mas de olho nos nossos interesses e ações para o presente momento. Repudiem alguém que fala para vocês não confiarem na medicina e na ciência. Cuidado com quem fala para vocês confiarem apenas na medicina. É inteligente compreender o contexto histórico em que uma novidade médica se apresenta para a sociedade.

Galeno de Pérgamo, famoso médico da Roma Antiga também conhecido como Cláudio Galeno, já dizia que o melhor médico é também um filósofo. Posso afirmar que os vacinados também são filósofos, e embora a disputa pela vacina para nos imunizar da COVID-19 seja também uma corrida por uma hegemonia econômica e política, não vejo problema algum em tomar um medicamento desses desde que seja recomendado pelas instituições competentes de saúde.

E vocês? Ansiosos pela criação de uma vacina que nos proteja do coronavírus? Acham que ela vai ser elaborada e distribuída logo? Como se posicionam diante disso?  

 

Saudações filosóficas.

Prof. Ulisses.



Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1gCeQvHKp7T-NrbkGd5nTs522OXoOrQNR/view?usp=sharing


quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Assis, 15 de outubro de 2020.


 

                                         Professor Raimundo. Fonte: TV Foco



Assis, 15 de outubro de 2020.

Queridos alunos e professores.

Tudo bem com vocês? Como estão as coisas? Trabalhando e estudando? E as reponsabilidades com as horas e horas de ensino digital? Tudo caminhando? Espero sinceramente que todos estejam relativamente bem dentro de nossas possibilidades.

Hoje é um dia muito especial. Celebramos o dia dos professores. Nesse ano tão difícil, em que tivemos a humanidade afrontada pela pandemia; conseguimos chegar até a famosa data para lembrar dos professores. São aqueles que vão às escolas para construir o conhecimento ao lado dos estudantes.

Alguém sabe me dizer por que no dia 15 de outubro comemoramos o dia do professor? A resposta nos ensina muito sobre a importância da educação na formação do Brasil. O imperador Pedro I  assinou no dia 15 de outubro de 1827, data que também a Igreja Católica dedica à educadora Santa Teresa de Ávila, um Decreto Imperial que obrigou a criação do Ensino Elementar no Brasil.

No ano de 1948, a deputada negra Antonieta de Barros, cuja as lutas contra a exploração, o racismo e o machismo são dignas de numerosas cartas, apresentou um projeto em Santa Catarina que fazia do dia 15 de outubro um feriado escolar. A luta das mulheres, em escala mundial, é o que alavanca nossa sociedade para níveis mais humanos. Essa data foi admitida como feriado nacional a partir de 1963, por meio do presidente João Goulart

É fundamental, queridos alunos e professores, ser destacado que a primeira regulamentação para o ensino básico no Brasil foi criada 327 anos após sua invasão pelos europeus. Isso nos dá a dimensão de algumas coisas sobre nossos problemas com a educação. Afinal, para que ensinar negros e índios a lerem e escreverem? É mais fácil se tornar senhor e explorar uma população analfabeta do que um povo que sabe por onde se organizar coletivamente e exigir seus direitos.

No entanto, durante esses 193 anos em que a educação é minimamente obrigatória no País, algumas coisas mudaram. Os tempos mudam, mas permanecendo o direito de um ser humano explorar o trabalho do outro, transformam-se somente os meios de como esfolar o outro com mais eficiência. Temos mais escolas, mais pessoas alfabetizadas, mais pessoas com acesso ao ensino superior e a coisa veio, por meio de muita luta dos trabalhadores, de certa forma aumentando seu acesso à educação.

Como vocês percebem todos os dias, nossas escolas estão muito longe de atenderem as necessidades reais de alunos e professores. Falta tecnologia, falta salário digno, falta alimentação, faltam profissionais de saúde e, acima de tudo, falta o reconhecimento das nossas autoridades de que a comunidade escolar não quer ser explorada.

Os professores, peço licença para a partir de agora usar o termo professoras por elas constituírem aproximadamente 90% de todo o magistério, são as pessoas mais solitárias do universo. Entram em uma sala de aula sem nenhum apoio de quem lhes deveria disponibilizar recursos. Apenas vocês, queridos estudantes, acabam sendo nossos companheiros e também vítimas desse prejudicado sistema de ensino. A maioria delas ganham menos de um salário mínimo, isso mesmo, muitas de suas professoras não ganham nem o necessário para a sobrevivência. Apenas sobrevivem.

Entram sozinhas na sala de aula. Acompanhadas somente por algum livro didático ou um currículo escolar, normalmente feitos pelos governos para que vocês não aprendam o suficiente, e ficam abandonadas à própria sorte. Essa professora, sem dinheiro e recursos educativos, tem família que depende dela. Filhos, mães, pais, esposos e agregados. Durante a semana ela empenha maior parte de seu tempo em ensinar seus alunos a lerem e escreverem do que seus próprios filhos.

Muitas dessas professoras ministram quase 70 aulas por semana. Trabalham os três períodos dos 5 dias de aulas da semana, e claro, mais o tempo que usa em seu descanso para preparar e finalizar essas aulas. Para vocês terem noção, pra poderem ter essa jornada de trabalho, é preciso trabalhar de segunda à sexta das 7 da manhã às 23 horas da noite. E isso muitas vezes sendo obrigada e lecionar em outros municípios, ou seja, gasta tempo e dinheiro com transporte: ônibus, bicicletas, motos, carros, trens, barcos, mulas e, na maioria das vezes, a pé.

Isso falando apenas de suas reponsabilidades profissionais. Não estou sequer mencionando a possibilidade de elas terem um período de descanso ou alguma tarefa pessoal. Acreditem! Essas professoras têm casas (habitualmente alugadas), contas a pagar, inúmeras delas um marido que não trabalha e que se encosta como mais um parasita sugando seu trabalho, atribuições domésticas e os filhos.

É impressionante, e humanamente fantástico, que essas professoras tenham filhos. O estado não propicia nem o direito de pré-natal para elas. A quantidade de faltas medicas que são necessárias para se realizar esses exames mensais é de no mínimo nove, por aproximação, uma por mês. Algumas professoras tem o direito de seis faltas ao ano, sendo que não pode ser mais de uma por mês, e a maioria delas duas faltas por contrato. Como alguns contratos são de dois anos, ela pode faltar uma vez por ano para ir ao médico.

Já vi professoras que tiveram licenças médicas negadas pelo estado quando faziam tratamentos de quimioterapia de combate ao câncer. Na prática, tiveram seus salários descontados nesse momento tão delicado da vida em que precisam de mais apoio do que nunca.

Quando elas se organizam para reivindicar seus direitos, contra esses abusos que os governos fazem, acabam sendo processadas e tendo seus míseros salários cortados. São verdadeiras guerreiras que lutam por toda a coletividade do magistério. Isso nos motiva a apoiá-las em suas lutas, que são também nossas, contra essa realidade que oprime a todos nós que dependemos diretamente da educação, ou seja, toda a sociedade.

Agora, nessa calamidade social que se impõe por meio da pandemia de COVID-19, muitos governos querem que voltemos à escola sem nenhuma segurança sanitária contra o vírus. As autoridades políticas estão empurrando goela a baixo uma lei que regulamenta o ensino à distância, trocando em miúdos, da forma como está sendo implementada gera mais desemprego e menores acessos do povo ao ensino. Não é todo mundo, alunos e professores, que tem internet, computador e celular. Muitos de nós, comunidade escolar, dependemos da escola até para a alimentação.

Isso me faz lembrar um grande pensador do Brasil chamado Darcy Ribeiro. Ele afirmou que a crise da educação não é uma crise; é projeto. Enquanto não nos organizarmos em grupo para exigir nossos direitos, como estudantes e professoras, as coisas são feitas para continuarem assim e até mesmo piorarem. Nós temos os mesmos direitos. Escola de qualidade, salários dignos, os estudantes também tinham que ter um salário para irem à escola por estarem dedicando seu tempo ao estudo e ao futuro do Brasil, merenda humanamente qualificada. Essa é a nossa luta.

Dia 15 de outubro é dia das professoras!

Salários e condições humanas de aula!

Merenda e salários para estudantes!

Dia 15 de outubro é dia de luta pela educação!

Feliz dia das professoras!

E vocês, se nossa sociedade fosse justa, como seriam as nossas escolas?

 

Saudações filosóficas.

Prof. Ulisses.


Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1rs8yVoZVYRf0I_xRpUdxnfLvuxAQPI7P/view?usp=sharing


sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Assis, 09 de outubro de 2020.


 Retrato de Nicolau Maquiavel. Autor: Santi di Tito (1536 - 1603) Fonte: Wikipédia.


Assis, 09 de outubro de 2020

Queridos alunos.

            Olá! Tudo bem?

Gostaria de conversar com vocês hoje sobre um filósofo muito famoso, ou melhor, um filósofo cuja fama vai além de seu pensamento. Já ouviram falar na palavra “maquiavélico”? O que ela significa? Uma pessoa maquiavélica seria alguém que executa friamente um plano, desde que alcance seus objetivos, não se importando com os outros?

Por enquanto, vamos compreender que maquiavélico é uma referência ao filósofo Nicolau Maquiavel. Ele ficou mundialmente conhecido por escrever sobre política, e em tempos de eleições, é sempre bom lembrar os pensamentos de pensadores que influenciam diretamente os candidatos e os políticos já ocupantes de cargos públicos.

Seu livro que ao longo dos séculos foi se consolidando como grande clássico da política chama-se “O Príncipe”. Nele o filósofo descreve algumas práticas, que haviam sido executadas por grandes líderes da antiguidade, e que inspiraram muitos outros até nossos dias. Inclusive, há uma versão muito divulgada do livro comentada pelo próprio Napoleão Bonaparte.

Muito se especulou sobre as motivações que fizeram com que Maquiavel escrevesse essa obra. Há quem diga que se trata de um pedido de emprego para cargo público na cidade de Florença. O filósofo Jean-Jacques Rousseau já entende que o livro é uma grande ironia sobre os mandos e desmandos dos grandes políticos a respeito da população trabalhadora e pobre. Independentemente de qualquer uma dessas interpretações, foi “O Príncipe” que tornou Maquiavel conhecido da maioria das pessoas

Vou destacar aqui para vocês apenas alguns aspectos. Na leitura desse livro encontramos vários outros, aliás, leitura muito mais do que recomendada. Maquiavel se coloca com um grande comentarista político do seu tempo, que é a passagem do século XV ao XVI, e ouso dizer que foi o primeiro filósofo a escrever sobre o seu tempo presente.

O que chama a atenção em Maquiavel é que o príncipe é proposto como uma posição política de maior poder sobre o que entendemos atualmente como país (hoje seriam os presidentes das nações). Ele deve fazer de tudo para manter o seu poder. Enganar, manipular, uso de violência física, enfim, todo tipo de conduta desde que seu objetivo seja manter-se no poder político.

Disso temos como consequência ser o Maquiavel o primeiro pensador que fez uma separação sobre ética e política. Não foi Maquiavel quem inventou na prática essa separação, pois usa de muitos exemplos históricos de políticos, reis, imperadores, ditadores e príncipes que para se manterem no poder não usavam nenhum tipo de ética, ou seja, respeito à integridade e dignidade humana. Contudo, no campo da análise política feita por um especialista, ele foi sim o primeiro a recomendar que, para não se perder o poder político, vale tudo.

Essa é uma característica básica de um pensamento elitista e conservador: garantir o poder sem nenhum escrúpulo ético. No entanto, Maquiavel também recomenda que é bom satisfazer as necessidades básicas do povo, não pelo bem do povo, mas porque um líder político que não tem apoio popular e é odiado pelos seus governados acaba perdendo o poder. Dessa forma, tudo gira em torno de permanecer no comando e não no bem comum.

Meus queridos, não estou questionando essa orientação central que os governantes possuem de quererem se manter no poder político a qualquer custo. Esse é um aspecto íntimo de qualquer governo sobre a população. O que podemos questionar é que apenas algumas pessoas, ou uma classe social de parasitas que nunca trabalharam e nem se preocuparam com os trabalhadores, façam isso.

No final do ano de 2002, Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente do Brasil de trágica lembrança, ao terminar seu segundo mandato, disse que iria ficar por algum tempo longe da vida pública e reler “O Príncipe” de Maquiavel. Diante dessas poucas ideias ditas sobre Maquiavel é muito compreensível essa disposição do ex-presidente.

Na época, eu acreditava que ele estava em condições até de superar o maquiavelismo do livro, não no sentido de ficar eternamente no poder, mas no das artimanhas contra a população. Essa suspeita minha se confirmou no ano de 2010, quando escreveu um texto de introdução para a leitura de uma edição de “O Príncipe” em Língua Portuguesa.

O que vocês pensam sobre o maquiavelismo? Afinal, o que é ser maquiavélico? Indiferença fria em relação aos outros? Estratégia para a manutenção do poder político pelo maior tempo possível? As duas coisas? Ou há outras maneiras que queiram descrever sobre o ser “maquiavélico”?

 

Saudações filosóficas (e maquiavélicas)

Prof. Ulisses.


Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1H61R4jYoAgeUTFGq2nZwV9_XZuCnkos1/view?usp=sharing

 


sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Assis, 2 de outubro de 2020.


 Título: A Clarividência (1936). Autor: René Magritte (1898 - 1967). Fonte: Pinterest.


Assis, 2 de outubro de 2020.

Queridos alunos.

Como passaram a semana? Muitos trabalhos da escola? A casa e a família estão bem? E a saúde? E o trabalho? Vamos nos esforçando para sobreviver à pandemia e pelo bem-estar de toda a comunidade. É o que tem para hoje.

Vamos conversar um pouco sobre profissões. Em toda minha trajetória como professor, sobretudo no Ensino Médio, percebo que a maioria de vocês tem dúvidas sobre qual profissão devem se esforçar para aprender em um curso, seja de ensino técnico ou universitário.

Evidentemente, e não vejo nenhum problema nisso, o grande critério de escolha sobre as profissões que a maioria adota é a questão da facilidade de se conseguir um emprego e um bom salário. Nossos desejos e escolhas são definidos pelas nossas necessidades materiais e, convenhamos, a de nós que somos trabalhadores humildes e filhos de gerações e gerações de trabalhadores pobres temos que nos esforçar e preocupar com isso sim.

Posso dividir por aqui como me tornei um professor de Filosofia. Quando tinha a idade de vocês, lá no final dos anos 1990, me deparei com o dilema de que profissão gostaria de seguir. Por também estar preocupado com a questão do emprego e do salário, primeiramente, pensei nas chamadas profissões liberais. Os cursos que consegui desejar foram os de medicina, direito e de contabilidade.

Fiz um curso técnico de contabilidade na popular escola industrial de Assis. Quando iniciei tinha quinze anos de idade e conclui com dezessete. Ali eu percebi que esse trabalho, embora na época poderia ser uma fonte de renda para mim, não iria ser algo que eu gostaria de desempenhar. Tinha certa facilidade com cálculos e matemática, mas percebi que não teria uma relação fácil com os meus chefes. E, acreditem, com a experiência e o estudo aprendi que em trabalho nenhum a lida com os patrões é harmoniosa, pois o interesse deles é oposto ao dos empregados.

No final de 1998, chegou o período de inscrições para o vestibular. Como havia concluído o curso técnico no meio desse ano, e já tinha decidido que procuraria estudar para trabalhar com outra coisa, havia ainda a possibilidade de procurar o ingresso nas faculdades de medicina e direito. O Brasil tinha passado pela reeleição de um presidente privatizador e lesa pátria chamado Fernando Henrique Cardoso, o qual eu não desejava que fosse reeleito, e eu sabia que os tempos continuariam difíceis.

Nesses tempos, com poucas esperanças para o futuro, desenvolvi algo chamado princípio de realidade (os psicólogos adoram isso). Compreendi que minhas condições financeiras me possibilitariam um curso público, não tinha dinheiro para os pagos, sou filho de um motorista de caminhão e de uma cozinheira. As faculdades de medicina e direito são praticamente impossíveis para os pobres, pois nossa formação na educação básica é precária no Brasil. Isso somente para quem não tem dinheiro e desde o início do universo a aproximadamente 14 bilhões de anos. Assim, para poder estudar sem pagar mensalidade, deveria ser um curso que a minha formação ruim me permitiria ir bem no vestibular.

Diante dessa realidade, pensei nos cursos que a Unesp de Assis tinha na época. Tinha bastante afinidade com psicologia, biologia e história. Desses cursos, exclui automaticamente psicologia e biologia, pois exigiam uma disponibilidade de tempo que não tinha, afinal de contas, precisava também trabalhar. História passou a ser uma possibilidade concreta, contudo, comecei a pensar sobre o curso de Filosofia da Unesp de Marília. Isso foi resultado de dois fatores: ele também é disponível sem mensalidades e tive contato com os pensamentos de alguns filósofos por meio das histórias que um familiar sempre me contava.

O Tio Cido, primeiro filósofo e livre pensador que eu conheci, é o irmão mais velho do meu pai. Ele sempre contava suas histórias. Era um grande leitor de bons livros e um ser humano muito acima da média, tanto como pessoa e também como estudioso. Ele trabalhou por dezenas de anos em gráficas, que são as empresas fabricantes de livros, fato de grande utilidade para conhecermos parte dos pensamentos e ideias dos grandes escritores e filósofos. Eu até hoje tento ter a sabedoria e o conhecimento do Tio Cido, como no tempo do vestibular tinha perdido as esperanças de ganhar muito dinheiro trabalhando, resolvi cursar a faculdade de Filosofia.

Na época não existia a obrigatoriedade da disciplina de Filosofia no Ensino Médio, por isso, o contato que tive com os pensamentos dos filósofos foi por meio desse primeiro filósofo que conheci. A possibilidade de ser professor no Ensino Médio era muito pequena, então, iniciei o curso pensando em ir trabalhando e me especializando também em outras áreas nas quais eu estivesse atuando. Quando terminei a faculdade, tive uma tristeza e uma alegria muito intensas. Meu pai havia tido um derrame cerebral muito grave, que o faz conviver com sequelas até hoje, e no início de 2005 a disciplina de Filosofia retornou ao currículo do ensino médio paulista. Dessa forma, bem no final da minha formação teórica em Filosofia, eu tinha um emprego por onde começar.

Fui contratado como professor e cá estou desde o dia 14 de fevereiro de 2005. No ano de 2007 passei no concurso o que me garantiu uma estabilidade na função de professor de educação básica, pelo menos até hoje, pois com esse governo estadual (João Doria) e federal (Jair Bolsonaro) que temos tão empenhados em destruir com o serviço público para a população, não sei até quando os serviços do Estado ficarão garantidos. Apenas tenho o conhecimento que sem a luta e a organização dos servidores públicos e a comunidade, nem a educação precária e deficitária que está por aí o povo terá acesso.

Percebam que o que fez de mim um professor de Filosofia são dois fatores muito decisivos na vida das pessoas. O primeiro e determinante fator foi o entendimento da minha condição financeira e material para continuar estudando. O segundo e formativo foram os contatos que tive durante a infância e a adolescência com os estudos.

Como já dizia Marx no livro Contribuição à Crítica de Economia Política: “O concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas determinações, isto é, unidade do diverso”. Em primeiro lugar, somos o que a realidade nos permite ser, secundariamente, desejamos e sonhamos aquilo que a realidade nos coloca como metas e objetivos no horizonte.

E vocês o que sonham e desejam como profissão? Suas realidades financeiras e materiais possibilitam os seus desejos? Tem como superar dificuldades financeiras para continuarem buscando o que desejam? Ou pensam em adaptar novos desejos às suas realidades materiais?

 

Saudações filosóficas.

Prof. Ulisses 

Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1j_eemwWBkp0-wMoBYtqLi3OXPFg8Yx0t/view?usp=sharing



Assis, 16 de junho de 2021.

                                      Título: Mito da Caverna (2021). Autor: Gabriel Serodio Assis, 16 de junho de 2021. Queridos alunos, Vo...