sexta-feira, 31 de julho de 2020


Foto: A Bolinha Azul. Registrada pela missão Apollo 17 (1972). Fonte: Wikipédia.


Assis, 30 de julho de 2020.

Queridos alunos.

Tudo bem com vocês? E as coisas em que pé estão? Tomando os cuidados possíveis contra a pandemia? Na última semana, infelizmente, acompanhamos um crescimento assustador do número de contágios e mortes no Brasil e também na cidade de Assis. Espero que estejam se comportando de modo a protegerem a si mesmos e aos outros.

Na última carta, debatemos sobre a necessidade de se estabelecer uma alimentação natural, sem o uso de agrotóxicos, para a população. Diante desse problema, surgiu um outro da maior importância: como cultivar produtos naturais em grande escala sem o uso de agrotóxicos? É possível?

Sim! É possível! E ainda sem a demagogia barata, por outro lado ex-tre-ma-men-te agressiva, tão divulgada por muitas organizações que se dizem defensoras de uma vida ligada com a natureza. Quero falar com vocês sobre um pesquisador suíço chamado Ernst Götsch.

Durante algum tempo de sua vida, ele trabalhou em uma instituição estatal da Suíça sendo responsável pelo melhoramento genético de plantas. Contudo, uma questão fundamental que fez sobre essa sua profissão, o fez pensar de maneira diferente.

“Será que, em vez de ficar buscando o desenvolvimento de plantas mais fortes para serem expostas com alta produtividade aos grandes maus tratos produzidos pelos agrotóxicos, nos preocupássemos em criar condições ambientais para que elas se desenvolvam bem, não seria mais inteligente?”.

Essa questão, do ponto de vista filosófico, se amparou em um conhecimento que tinha sobre o filósofo Immanuel Kant. Götsch desenvolveu 15 princípios de conduta e para divulgação de suas práticas. O decimo terceiro, ele escreve com as seguintes palavras:

 

“XIII - Todas as espécies - com a exceção do ser humano moderno e da maioria dos animais domesticados por ele adotados – agem baseadas nos princípios do “Imperativo Categórico”, formulado por Immanuel Kant (1724-1804) que diz: ‘Aja de modo que você gostaria que os princípios submetidos a suas interações sejam elevados imediatamente a princípios de leis universais’. (Ou seja, aplicados a você mesmo).”. Ernst Götsch[1]

 

Desse modo, procurou utilizar o Imperativo Categórico proposto por Kant, que é a busca de um comportamento que você quer que os outros tenham para com você e que esse comportamento seja tão bom que possa ser uma lei justa e para todos. Simplificando: fazer aos outros aquilo que você gostaria que fosse feito para você.

Com a intenção de praticar essa ideia, pediu demissão de seu cargo e arrendou terras na Suíça e na Alemanha. Começou a aplicar algumas teorias de Agricultura Ecológica, e assim foi percebendo, a ajuda que as árvores traziam para o solo e a combinação de plantios de raízes, grãos e verduras.

Em 1979 foi para a Costa Rica. Lá, em um projeto que recebia os refugiados nicaraguenses da Revolução Sandinista (revolta do povo da Nicarágua contra o imperialismo norte-americano que se impunha violentamente através do ditador Somoza), ensinou e desenvolveu métodos de agricultura sustentável.

No ano de 1982, muda-se para a Bahia, com o objetivo de recuperar 480 hectares de terra para o cultivo de cacau. A fazenda, que estava completamente desmatada e transformada em pasto, foi o lugar onde continuou desenvolvendo suas técnicas de agricultura. Sem o uso de agrotóxicos e que combinam o plantio de floresta e a existência até de pragas que seriam exterminadas na agricultura convencional.

Em poucos anos, sua fazenda era a mais produtiva da região, tanto em quantidade quanto em qualidade. A praga conhecida como “vassoura de bruxa”, que faliu diversos agricultores de cacau, não destruiu a sua plantação. Na sua concepção, o aparecimento de uma praga não significa que você deve mata-la com veneno, mas fazer um manejo diferente para que ela não prejudique o seu trabalho. A fazenda voltou a ter minas de água, voltaram as chuvas e está praticamente recuperada.

Com o passar do tempo, Götsch batizou suas técnicas de trabalho de “Agricultura Sintrópica”. Em termos gerais, é uma forma de produzir alimentos em que não se perde nenhuma energia criada pela natureza. Para um conhecimento mais aprofundado, sugiro que visitem o site chamado “Agenda Götsch”.

Hoje, em parceria com outros agricultores, está se empenhando em aplicar a Agricultura Sintrópica para produções em grande escala e desenvolvendo tecnologia para isso. Os resultados já são muito satisfatórios a ponto de chamar a atenção da sociedade para uma prática mais ampla.

Com isso, surgem questões que devemos responder para entender quando uma praga atormenta o planeta. Basta eliminá-la com um produto químico? Ou também temos que entender as condições sociais e biológicas que possibilitaram o seu surgimento? Ou as duas coisas?

 

Saudações filosóficas.

Prof. Ulisses.



Áudio do texto disponível em:

https://drive.google.com/file/d/15xZJG1uLEIftNgiIoA3HMs0GNHokprIV/view?usp=sharing



Um comentário:

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