O Banquete de Platão - 1873. Anselm Feuerbach (1829-1880). Fonte: Wikipédia.
Assis,
25 de junho de 2020.
Queridos
alunos.
Com
o mais profundo desejo de que vocês estejam bem, em todos os sentidos em que um
ser humano possa estar bem, inicio mais uma carta. Sabemos que as coisas não
andam fáceis ultimamente, contudo, estamos aqui para tentar fazer com que não
fiquem tão difíceis.
Muitos tem me perguntado: “Professor. O senhor não vai passar nada? Nenhuma atividade para a gente?”. A resposta é que as atividades que estimulo e quero que vocês façam é a leitura desses textos que são enviados semanalmente. Para quem não tiver tempo ou disposição... vai o áudio. Simples assim!
Na última carta, em que refletimos sobre a questão do amor, disse que faria uma sequência sobre o tema. Recebi muitas sugestões e várias contribuições, que no final das contas, vão aparecer nessa e em todas as outras que nós debateremos sobre esse tão controverso ponto.
Na mitologia grega, que nos relata diversas histórias que muitos de vocês já conhecem, um dos deuses do amor é o Eros. Aliás, a palavra “erótico” tem essa origem... digamos assim.... mitológica. O filósofo Platão, no livro chamado “O Banquete”, nos descreve uma versão muito curiosa sobre o nascimento de Eros. Na verdade, a concepção.
Estava sendo celebrada uma festa em homenagem ao nascimento de Afrodite, também deusa do amor e da beleza, daí a origem da palavra afrodisíaco. Pênia, deusa da pobreza, (percebam que para os gregos até a pobreza tem uma deusa... que sacanagem!) foi mendigar na porta da festa, pois pobre nunca é convidado pra festa de chique de rico.
No final da festa, em que geralmente os que bebem mais já estão de porre, Poros, deus da astúcia e da riqueza, adormeceu travado de bêbado no grande jardim da casa. Pênia, a pobreza, se deitou com ele e acabaram por conceber um filho.
Eros, fruto dessa relação, por ter sido gerado no dia de homenagens à Afrodite, acabou se aproximando dela. Por isso o amor gosta daquilo que julga belo. Por ser filho da pobreza, sempre sente necessidade e a ausência daquilo que gosta, no caso, ama. Mas por também ser filho da astúcia, usa de todas as artimanhas para conseguir para si aquilo que ama.
Quando Platão analisa essa passagem mitológica, chega à conclusão que as pessoas amam tudo o que elas não tem, pois o que já é delas, não lhes causa necessidade. O pobre ama o dinheiro porque não tem. O rico ama o dinheiro por achar que tem pouco, quer sempre mais; sendo o amor filho da necessidade, da falta e da astúcia, nunca estará satisfeito.
Os deuses não podem amar, posto que eles tem tudo, por isso, são adorados independentemente da ordem mitológica ou religiosa. Os deuses não são filósofos, eles já tem toda a sabedoria, e o filósofo é o amante da sabedoria. O verdadeiro filósofo, ou a pessoa que gosta de conhecer as coisas que admira, deve se reconhecer como um burro, mas um burro que sabe que é burro e não quer mais ser burro. Afinal, ama a sabedoria daquilo que busca.
Dessa forma, o amor não é visto como um sentimento, mas um elo que liga os homens aos deuses. Que fique entendido, embora Platão seja religioso, essa afirmação pode ser traduzida nas seguintes palavras. O amor é a ponte que une alguém que sente uma ausência àquilo que lhe falta.
Assim, dentro desse pensamento divulgado por Platão, o amor é a carência daquilo que nos falta. Reparemos ao nosso lado, e até em nós mesmos, quanta coisa não temos e por isso as amamos. Necessidades básicas de sobrevivência. Alimentação. Moradia. Saúde. Trabalho. Questões pessoais e sentimentais. Enfim, por aí vai.
Tirem da cabeça que amor platônico é o amor idealizado ou o que não se realiza na prática. Amor platônico é a incessante busca pelo que não temos.
E vocês? Concordam com isso? Deixo um questionamento maliciosamente social e filosófico, qual seria uma característica genuinamente humana, o amor ou o ódio?
Saudações filosóficas
Prof. Ulisses.
Áudio do texto disponível em:
https://drive.google.com/file/d/1UwutIVH7D6htWvsoYCER2tiuKoJtSS9M/view?usp=sharing

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