Assis, 29 de maio de 2020
Queridos alunos
Espero que essa carta encontre vocês com saúde e sem nenhuma outra necessidade humana. Como todos podem perceber, continuamos afastados das aulas presenciais, em virtude da luta pela sobrevivência que a humanidade está travando contra a pandemia de COVID-19, o que nos mantém ainda afastados fisicamente da escola. Por enquanto, nossa comunicação permanece exclusivamente digital.
No mais como como vocês estão? Como vai a vida? Como estão lidando com as tarefas escolares que os professores enviam como atividades domiciliares? Tenho a impressão que, de uma maneira geral, todas as nossas ações mais simples foram completamente modificadas nesses tempos de isolamento social.
Estamos diante de uma realidade especial, pois vemos que pessoas doentes, recuperadas e mortas são contabilizadas numa matemática funerária em que os que se reestabelecem parecem terem sido agraciados pela sorte. Dessa forma, vemos como o povo é tratado pelas autoridades públicas.
A única medida que adotaram para combater essa pandemia, como é divulgado pela imprensa, foi o isolamento social. O princípio se pauta em diminuir o contato entre as pessoas para reduzir o contágio do vírus. Na realidade, nos isolamos na medida em que é possível, pois como bem disse Karl Marx, o ser humano é concretamente um ser social e por isso depende do outro. E assim vamos nos relacionando na luta pela sobrevivência.
Contudo, o fato de termos menos contatos físicos nos torna mais pensativos. Nossa mente viaja e se aventura pelos pensamentos mais variados. Muitas vezes se admira, ou até se desespera, dentro das inúmeras possibilidades que nossa cabeça pode pensar. Em resumo: a solidão nos torna um tanto mais pensadores e filósofos.
Aí surge novamente uma questão que a sociedade tenta resolver há no mínimo 2500 anos. Se o senhor professor está falando que a solidão nos torna mais pensadores e filósofos, o que é, afinal, a Filosofia?
Essa pergunta, como toda outra criada pela sociedade, tem uma resposta adequada para cada tempo. Como todo professor de Filosofia adora os gregos antigos, vou falar de um filósofo chamado Sócrates para ajudar-nos nesse problema. Embora ele esteja lá na antiguidade, nada nos impede de atualizar seus pensamentos em nosso tempo, desde que estejamos preocupados em dialogar com os nossos interesses reais.
De que maneira Sócrates, famoso mundialmente pela frase “Só sei que nada sei.”, poderia nos ajudar, já que ele mesmo sabe que não sabe de nada? Pode sim, pois a partir do momento em que ele reconheceu que não sabe de nada, acabou se dispondo a buscar saber e para isso se orientou em outro pensamento muito comum na antiguidade grega: “Conhece-te a ti mesmo”.
Agora é que são elas! Vocês conhecem a si mesmos? Sabem que reação podem praticar diante de uma grande injustiça? Como reagiriam ao presenciar um estupro ou pedofilia? Uma violência contra a mulher? Contra os negros? Contra a humanidade toda? Alguém aqui se considera em condições de realizar algum tipo de injustiça, seja ela pequena ou grande?
E como se comportariam em frente a uma coisa muito boa? Alguém que abre mão de todos os seus interesses individuais e familiares para dedicar-se ao bem da humanidade? Quando veem outra pessoa sofrendo de alguma dor, sentem em sua própria carne a mesma dor?
Sócrates nos fala de uma Filosofia que não se limita em somente pensar, mas em pensar e praticar. “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os deuses”. Vamos nessa jornada? Tentaremos então nos conhecer? Ou envelheceremos tentando?
Saudações filosóficas.
Prof. Ulisses.
Nenhum comentário:
Postar um comentário