sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Assis, 18 de setembro de 2020.

Título: "O Velho Pescador" (1902) Tivadar Kosztka Csontváry (1853 - 1919) Fonte:UOL.


Assis, 17 de setembro de 2020.

Queridos alunos.

Tudo bem com vocês? Como passaram a semana? Trabalhando e estudando bastante? Estão se comportando bem. Mocinhos e mocinhas... olha lá hein? Espero que estejam com a saúde e todas as demais necessidades humanas em dia.

Na última carta, debatemos um pouco sobre a saudade e a função da disposição filosófica em criar perguntas. Também falamos sobre a importância de responder algumas dessas perguntas, sempre conscientes de que as perguntas e as respostas são filhas de seus tempos históricos.

Incentivei vocês, em vez de responderem as perguntas que normalmente deixo abertas nos finais das cartas, a criarem suas próprias indagações. Pois bem! A grande maioria dos questionamentos que vocês me mandaram foi: “o que é saudade? ” -  e “por que sentimos saudades? ”

Minha avó tinha dois sábios ditados que eu não soube respeitar. Sempre me dizia: “Não mexe com quem tá quieto “ e “Quem fala demais dá bom dia a cavalo”. Ainda bem! Por mais difícil que sejam essas dúvidas que vocês apresentaram, elas nos estimulam a procurar saber mais sobre esse sentimento tão humano que é a saudade. Então... vamos lá!

Em linhas gerais, vou procurar demonstrar o significado histórico da palavra saudade; como nosso corpo reage quando percebe socialmente à saudade e algumas impressões pessoais que tenho sobre a saudade. Tudo isso de forma bem resumida e bem limitada.

A palavra saudade vem do latim solitas, cujo significado é solidão. Atualmente, o modo como usamos esse termo, mostra um sentimento que se refere à alguma pessoa, coisa ou situação que tivemos contato no passado e nos faz falta hoje. 

Já vi muitas pessoas dizerem que a palavra saudade é uma criação única da Língua Portuguesa e, prestem atenção, isso é falso. Em diversos idiomas há palavras com significados muito parecidos, para não dizer idênticos, ao que compreendemos em nossa língua.

A primeira vez que a palavra saudade foi dita em território brasileiro foi ainda na época do Brasil colônia. Os portugueses que se mudavam para o Brasil, para saquear as riquezas dos povos indígenas e (também matá-los), a usavam para expressar a falta que sentiam dos seus amigos, familiares e do país de Portugal. Com o tempo e o desenvolvimento literário, fomos nos apropriando desse termo para dar um significado de melancolia e tristeza.

Quando sentimos saudade, ou seja, a falta de algo ou de alguém, nosso cérebro tem uma reação que nos motiva à busca de uma satisfação. Ele aumenta a produção de um hormônio chamado cortisol, que é responsável por ficarmos estressados e inquietos; e diminui a produção de oxitocina, que possibilita a sensação de satisfação amorosa.

Do ponto de vista prático, a insatisfação que sentimos quando estamos com saudade é um aviso do cérebro para você buscar alguma satisfação. Ela pode ser o reencontro com alguém, com algum lugar ou alguma situação. Quando esse reencontro não é possível, o melhor a fazer é buscar essa satisfação em outras coisas. Cuidado hein, gente! É saudável que essas outras coisas sejam bem escolhidas.

Aí que entra o lado filosófico da saudade. Quando não é possível eliminar a saudade, porque a infância e a juventude não voltam ou porque ninguém renasce, a saudade se torna um vínculo que você tem com o seu passado para dar um sentido na sua vida presente. É inteligente usar a saudade como uma motivação para novas experiências com a intenção de se revigorar, mesmo que ela permaneça como uma lembrança melancólica de algo que não volta mais, considero fundamental diminuir os níveis de cortisol no corpo.

Não se iludam. Todo mundo sente saudades e isso não deve ser visto pelo lado ruim da coisa. Não sinto nenhuma saudade de estar com vocês às 7 h ou às 23 h na escola, mas sinto muitas saudades de vocês e até da própria escola. Sinto saudades dos funcionários e dos professores.

Contudo, ainda não é tempo de voltar para a escola porque nenhuma medida de saúde pública como a vacinação da população ainda foi executada.

Assim, eu acabo por diminuir esse sentimento quando escrevo cartas pra vocês e me alivio quando me respondem. Quando converso com alguns colegas em reuniões de professores on line eu também me sinto bem. Enfim, a saudade nunca pode ser uma justificativa para se cometer bobagens, mas para buscar um progresso coletivo e individual.

Vou deixar aqui uma sugestão para vocês. Todo mundo sabe muito bem do que sente saudades, agora, façam um exercício de perguntar para a pessoa mais idosa que você conhece sobre o que ela sente saudade. Será que você vai se surpreender com a resposta? 

Por fim, fica um poema de Fernando Pessoa, chamado “Eu amo tudo o que foi” publicado no livro “Poesias Inéditas (1930 – 1935) ”.

 

Eu amo tudo o que foi.

 

Eu amo tudo o que foi,

Tudo o que já não é,

A dor que já não me dói,

A antiga e errônea fé,

O ontem que a dor deixou,

O que deixou alegria

Só porque foi e voou

E hoje é já outro dia.

 

(Fernando Pessoa)

 

Saudações filosóficas.

Prof. Ulisses.


Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1CA1XGeI8OUZjDhnPwHE1EoRNCXqL2LuG/view?usp=sharing


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