Título: "O Velho Pescador" (1902) Tivadar Kosztka Csontváry (1853 - 1919) Fonte:UOL.
Assis, 17 de setembro de 2020.
Queridos
alunos.
Tudo
bem com vocês? Como passaram a semana? Trabalhando e estudando bastante? Estão
se comportando bem. Mocinhos e mocinhas... olha lá hein? Espero que estejam com
a saúde e todas as demais necessidades humanas em dia.
Na
última carta, debatemos um pouco sobre a saudade e a função da disposição
filosófica em criar perguntas. Também falamos sobre a importância de responder
algumas dessas perguntas, sempre conscientes de que as perguntas e as respostas
são filhas de seus tempos históricos.
Incentivei
vocês, em vez de responderem as perguntas que normalmente deixo abertas nos
finais das cartas, a criarem suas próprias indagações. Pois bem! A grande
maioria dos questionamentos que vocês me mandaram foi: “o que é saudade? ”
- e “por que sentimos saudades? ”
Minha
avó tinha dois sábios ditados que eu não soube respeitar. Sempre me dizia: “Não
mexe com quem tá quieto “ e “Quem fala demais dá bom dia a cavalo”. Ainda bem!
Por mais difícil que sejam essas dúvidas que vocês apresentaram, elas nos
estimulam a procurar saber mais sobre esse sentimento tão humano que é a
saudade. Então... vamos lá!
Em
linhas gerais, vou procurar demonstrar o significado histórico da palavra
saudade; como nosso corpo reage quando percebe socialmente à saudade e algumas
impressões pessoais que tenho sobre a saudade. Tudo isso de forma bem resumida
e bem limitada.
A
palavra saudade vem do latim solitas,
cujo significado é solidão. Atualmente, o modo como usamos esse termo, mostra
um sentimento que se refere à alguma pessoa, coisa ou situação que tivemos
contato no passado e nos faz falta hoje.
Já
vi muitas pessoas dizerem que a palavra saudade é uma criação única da Língua
Portuguesa e, prestem atenção, isso é falso. Em diversos idiomas há palavras
com significados muito parecidos, para não dizer idênticos, ao que
compreendemos em nossa língua.
A
primeira vez que a palavra saudade foi dita em território brasileiro foi ainda
na época do Brasil colônia. Os portugueses que se mudavam para o Brasil, para
saquear as riquezas dos povos indígenas e (também matá-los), a usavam para
expressar a falta que sentiam dos seus amigos, familiares e do país de
Portugal. Com o tempo e o desenvolvimento literário, fomos nos apropriando
desse termo para dar um significado de melancolia e tristeza.
Quando
sentimos saudade, ou seja, a falta de algo ou de alguém, nosso cérebro tem uma
reação que nos motiva à busca de uma satisfação. Ele aumenta a produção de um
hormônio chamado cortisol, que é responsável por ficarmos estressados e
inquietos; e diminui a produção de oxitocina, que possibilita a sensação de
satisfação amorosa.
Do
ponto de vista prático, a insatisfação que sentimos quando estamos com saudade
é um aviso do cérebro para você buscar alguma satisfação. Ela pode ser o
reencontro com alguém, com algum lugar ou alguma situação. Quando esse
reencontro não é possível, o melhor a fazer é buscar essa satisfação em outras
coisas. Cuidado hein, gente! É saudável que essas outras coisas sejam bem
escolhidas.
Aí
que entra o lado filosófico da saudade. Quando não é possível eliminar a
saudade, porque a infância e a juventude não voltam ou porque ninguém renasce,
a saudade se torna um vínculo que você tem com o seu passado para dar um
sentido na sua vida presente. É inteligente usar a saudade como uma motivação
para novas experiências com a intenção de se revigorar, mesmo que ela permaneça
como uma lembrança melancólica de algo que não volta mais, considero
fundamental diminuir os níveis de cortisol no corpo.
Não
se iludam. Todo mundo sente saudades e isso não deve ser visto pelo lado ruim
da coisa. Não sinto nenhuma saudade de estar com vocês às 7 h ou às 23 h na
escola, mas sinto muitas saudades de vocês e até da própria escola. Sinto
saudades dos funcionários e dos professores.
Contudo,
ainda não é tempo de voltar para a escola porque nenhuma medida de saúde
pública como a vacinação da população ainda foi executada.
Assim,
eu acabo por diminuir esse sentimento quando escrevo cartas pra vocês e me
alivio quando me respondem. Quando converso com alguns colegas em reuniões de
professores on line eu também me
sinto bem. Enfim, a saudade nunca pode ser uma justificativa para se cometer
bobagens, mas para buscar um progresso coletivo e individual.
Vou
deixar aqui uma sugestão para vocês. Todo mundo sabe muito bem do que sente
saudades, agora, façam um exercício de perguntar para a pessoa mais idosa que
você conhece sobre o que ela sente saudade. Será que você vai se surpreender
com a resposta?
Por
fim, fica um poema de Fernando Pessoa, chamado “Eu amo tudo o que foi”
publicado no livro “Poesias Inéditas (1930 – 1935) ”.
Eu amo tudo o que foi.
Eu
amo tudo o que foi,
Tudo
o que já não é,
A
dor que já não me dói,
A
antiga e errônea fé,
O
ontem que a dor deixou,
O
que deixou alegria
Só
porque foi e voou
E
hoje é já outro dia.
(Fernando Pessoa)
Saudações
filosóficas.
Prof.
Ulisses.
Áudio disponível em:
https://drive.google.com/file/d/1CA1XGeI8OUZjDhnPwHE1EoRNCXqL2LuG/view?usp=sharing

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