quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Assis, 15 de outubro de 2020.


 

                                         Professor Raimundo. Fonte: TV Foco



Assis, 15 de outubro de 2020.

Queridos alunos e professores.

Tudo bem com vocês? Como estão as coisas? Trabalhando e estudando? E as reponsabilidades com as horas e horas de ensino digital? Tudo caminhando? Espero sinceramente que todos estejam relativamente bem dentro de nossas possibilidades.

Hoje é um dia muito especial. Celebramos o dia dos professores. Nesse ano tão difícil, em que tivemos a humanidade afrontada pela pandemia; conseguimos chegar até a famosa data para lembrar dos professores. São aqueles que vão às escolas para construir o conhecimento ao lado dos estudantes.

Alguém sabe me dizer por que no dia 15 de outubro comemoramos o dia do professor? A resposta nos ensina muito sobre a importância da educação na formação do Brasil. O imperador Pedro I  assinou no dia 15 de outubro de 1827, data que também a Igreja Católica dedica à educadora Santa Teresa de Ávila, um Decreto Imperial que obrigou a criação do Ensino Elementar no Brasil.

No ano de 1948, a deputada negra Antonieta de Barros, cuja as lutas contra a exploração, o racismo e o machismo são dignas de numerosas cartas, apresentou um projeto em Santa Catarina que fazia do dia 15 de outubro um feriado escolar. A luta das mulheres, em escala mundial, é o que alavanca nossa sociedade para níveis mais humanos. Essa data foi admitida como feriado nacional a partir de 1963, por meio do presidente João Goulart

É fundamental, queridos alunos e professores, ser destacado que a primeira regulamentação para o ensino básico no Brasil foi criada 327 anos após sua invasão pelos europeus. Isso nos dá a dimensão de algumas coisas sobre nossos problemas com a educação. Afinal, para que ensinar negros e índios a lerem e escreverem? É mais fácil se tornar senhor e explorar uma população analfabeta do que um povo que sabe por onde se organizar coletivamente e exigir seus direitos.

No entanto, durante esses 193 anos em que a educação é minimamente obrigatória no País, algumas coisas mudaram. Os tempos mudam, mas permanecendo o direito de um ser humano explorar o trabalho do outro, transformam-se somente os meios de como esfolar o outro com mais eficiência. Temos mais escolas, mais pessoas alfabetizadas, mais pessoas com acesso ao ensino superior e a coisa veio, por meio de muita luta dos trabalhadores, de certa forma aumentando seu acesso à educação.

Como vocês percebem todos os dias, nossas escolas estão muito longe de atenderem as necessidades reais de alunos e professores. Falta tecnologia, falta salário digno, falta alimentação, faltam profissionais de saúde e, acima de tudo, falta o reconhecimento das nossas autoridades de que a comunidade escolar não quer ser explorada.

Os professores, peço licença para a partir de agora usar o termo professoras por elas constituírem aproximadamente 90% de todo o magistério, são as pessoas mais solitárias do universo. Entram em uma sala de aula sem nenhum apoio de quem lhes deveria disponibilizar recursos. Apenas vocês, queridos estudantes, acabam sendo nossos companheiros e também vítimas desse prejudicado sistema de ensino. A maioria delas ganham menos de um salário mínimo, isso mesmo, muitas de suas professoras não ganham nem o necessário para a sobrevivência. Apenas sobrevivem.

Entram sozinhas na sala de aula. Acompanhadas somente por algum livro didático ou um currículo escolar, normalmente feitos pelos governos para que vocês não aprendam o suficiente, e ficam abandonadas à própria sorte. Essa professora, sem dinheiro e recursos educativos, tem família que depende dela. Filhos, mães, pais, esposos e agregados. Durante a semana ela empenha maior parte de seu tempo em ensinar seus alunos a lerem e escreverem do que seus próprios filhos.

Muitas dessas professoras ministram quase 70 aulas por semana. Trabalham os três períodos dos 5 dias de aulas da semana, e claro, mais o tempo que usa em seu descanso para preparar e finalizar essas aulas. Para vocês terem noção, pra poderem ter essa jornada de trabalho, é preciso trabalhar de segunda à sexta das 7 da manhã às 23 horas da noite. E isso muitas vezes sendo obrigada e lecionar em outros municípios, ou seja, gasta tempo e dinheiro com transporte: ônibus, bicicletas, motos, carros, trens, barcos, mulas e, na maioria das vezes, a pé.

Isso falando apenas de suas reponsabilidades profissionais. Não estou sequer mencionando a possibilidade de elas terem um período de descanso ou alguma tarefa pessoal. Acreditem! Essas professoras têm casas (habitualmente alugadas), contas a pagar, inúmeras delas um marido que não trabalha e que se encosta como mais um parasita sugando seu trabalho, atribuições domésticas e os filhos.

É impressionante, e humanamente fantástico, que essas professoras tenham filhos. O estado não propicia nem o direito de pré-natal para elas. A quantidade de faltas medicas que são necessárias para se realizar esses exames mensais é de no mínimo nove, por aproximação, uma por mês. Algumas professoras tem o direito de seis faltas ao ano, sendo que não pode ser mais de uma por mês, e a maioria delas duas faltas por contrato. Como alguns contratos são de dois anos, ela pode faltar uma vez por ano para ir ao médico.

Já vi professoras que tiveram licenças médicas negadas pelo estado quando faziam tratamentos de quimioterapia de combate ao câncer. Na prática, tiveram seus salários descontados nesse momento tão delicado da vida em que precisam de mais apoio do que nunca.

Quando elas se organizam para reivindicar seus direitos, contra esses abusos que os governos fazem, acabam sendo processadas e tendo seus míseros salários cortados. São verdadeiras guerreiras que lutam por toda a coletividade do magistério. Isso nos motiva a apoiá-las em suas lutas, que são também nossas, contra essa realidade que oprime a todos nós que dependemos diretamente da educação, ou seja, toda a sociedade.

Agora, nessa calamidade social que se impõe por meio da pandemia de COVID-19, muitos governos querem que voltemos à escola sem nenhuma segurança sanitária contra o vírus. As autoridades políticas estão empurrando goela a baixo uma lei que regulamenta o ensino à distância, trocando em miúdos, da forma como está sendo implementada gera mais desemprego e menores acessos do povo ao ensino. Não é todo mundo, alunos e professores, que tem internet, computador e celular. Muitos de nós, comunidade escolar, dependemos da escola até para a alimentação.

Isso me faz lembrar um grande pensador do Brasil chamado Darcy Ribeiro. Ele afirmou que a crise da educação não é uma crise; é projeto. Enquanto não nos organizarmos em grupo para exigir nossos direitos, como estudantes e professoras, as coisas são feitas para continuarem assim e até mesmo piorarem. Nós temos os mesmos direitos. Escola de qualidade, salários dignos, os estudantes também tinham que ter um salário para irem à escola por estarem dedicando seu tempo ao estudo e ao futuro do Brasil, merenda humanamente qualificada. Essa é a nossa luta.

Dia 15 de outubro é dia das professoras!

Salários e condições humanas de aula!

Merenda e salários para estudantes!

Dia 15 de outubro é dia de luta pela educação!

Feliz dia das professoras!

E vocês, se nossa sociedade fosse justa, como seriam as nossas escolas?

 

Saudações filosóficas.

Prof. Ulisses.


Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1rs8yVoZVYRf0I_xRpUdxnfLvuxAQPI7P/view?usp=sharing


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