Assis, 25 de setembro de 2020.
Queridos
alunos.
Tudo
bem com vocês? Como passaram a última semana? Estão tomando cuidados? Em tempos
de pandemia, em que o estado e o consórcio de imprensa se limitam a contar
mortos, é importante permanecerem em constante vigilância. Afinal, estamos
lutando para superar essa verdadeira desgraça coletiva que nos tem feito sofrer
muito. E vamos conseguir!
Tenho
recebido muitos comentários sobre nossas cartas. Nos últimos meses, o que não me
surpreende de maneira nenhuma, é o aumento significativo das suas opiniões,
críticas e sugestões. Continuem assim! A única forma que temos de melhorar os
conteúdos é trocando ideias sobre eles.
E,
faço aqui um justo e necessário destaque, os apontamentos que vocês fazem não aumentaram
somente em quantidade, mas também em qualidade. Entendam isso como um grande
elogio meu como professor de filosofia, pois isso quer dizer que além de lerem
e escutarem os nossos textos, estão interpretando e se posicionando diante
deles.
Não adianta apenas fazer uma interpretação de
um texto por ela mesma, mas se colocar e agir como alguém que também tem algo a
fazer e a dizer diante das informações entendidas. E isso estão fazendo com
muita habilidade e propriedade. Parabéns!
Hoje
quero conversar com vocês sobre a necessidade de ouvirmos e contarmos
histórias... as nossas histórias. Elas nos fazem ser o que somos e nos transformam,
sendo que ao longo da vida, estamos em constante transformação. Queiramos ou não,
percebamos ou não, o fato de mudarmos é a única coisa que não muda.
Na
escola, por exemplo, vocês escutam, falam e fazem história o tempo todo. O professor,
quando está em aula, a todo momento está contando uma história para os
estudantes. A interação entre alunos, sendo naquela bagunça monumental que fazem
ou quando estão conversando mais pessoalmente, é recheada de histórias. Enfim,
contar histórias é algo que as pessoas gostam, e como diria o sábio Paulinho
Gogó: “Quem não tem dinheiro conta história. ”.
Existe
um filósofo, que aprecio muito suas histórias, chamado Walter Benjamin. Ele tem
muitos pensamentos bastante interessantes para pensarmos em nossos dias. Sua biografia
é de uma riqueza humana gigantesca, podemos usar várias cartas para escrever
sobre ela. Como adoro dar spoiler e
contar o final, sua morte derivou das perseguições dos nazistas aos judeus, e
ele era judeu...
Benjamin,
depois da Primeira Guerra Mundial, afirmou que os seres humanos estavam
perdendo a capacidade de contar histórias. Para chegar nessa conclusão, ele
percebeu que os soldados que sobreviveram à guerra e voltaram para suas casas
permaneciam calados. Também pudera, né? Imaginem o que é vivenciar os horrores
e a matança de um conflito armado.
Permitam-me
por um momento, queridos alunos, pensar com vocês e com Benjamin de modo a
revigorar esse seu pensamento. Nós estamos mesmo perdendo nossa capacidade de
ouvir e de contar histórias? Não dá para compreender um soldado traumatizado
por uma guerra, ou qualquer outra pessoa traumatizada por qualquer outra coisa,
não querer contar essas histórias? Falar sobre um acontecimento traumatizante é
difícil? Dividir um trauma com alguém pode ajudar em sua superação?
Podem
reparar, as pessoas gostam de ouvir e de falar histórias. As redes sociais
estão cheias de histórias. Os programas e sites
vivem de acontecimentos mais comuns das vidas dos famosos. Vejo também as
nossas cartas, alguns preferem ouvi-las pelo áudio e outros lê-las pelo
celular, mas se interessam em suas histórias.
Como
a maioria das pessoas, recordo com saudade das histórias das minhas avós e dos
meus tios e tias que já se foram, e que sempre tinham algo para dizer sobre o
passado, o presente e o futuro em suas narrações. Quando me coloco a escrever
cartas para vocês, é porque também gosto de contar e de ouvir histórias.
Contudo,
quando o que tenho para dizer me lembra de um trauma antigo, também não gosto
de falar, mas é necessário. Existem profissionais especialistas nisso, os
psicólogos, os que fazem a gente desenterrar histórias que de tão tristes que
foram nossa mente acaba se esquecendo para a gente não lembrar. Mas o resumo de
tudo isso é que, na realidade precisamos contar as nossas histórias, se não for
para todo mundo, tem que ser para nós mesmos.
E
vocês contam suas histórias? Gostam de ouvir histórias? Conversam com aquele
familiar ou amigo idoso que conta muitas histórias? Será que quando acabar a
pandemia, conseguiremos contar as histórias que estamos vivendo com ela? Não nos
esqueçamos de nosso passado, para não repetirmos os mesmos erros no presente e
no futuro.
Saudações
filosóficas.
Prof.
Ulisses.
Áudio disponível em:
https://drive.google.com/file/d/1BYmgx7qptW8puZaomyOoBgyISnGZ1GbO/view?usp=sharing

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