Vidas negras importam. Fonte: site da Apeoesp.
Assis,
01 de setembro de 2020.
Queridos
alunos.
Vocês estão bem? Continuam se
cuidando? E a família? E a casa? Nesses dias difíceis, em que a pandemia
misturada com todos os nossos outros problemas sociais nos afetam diretamente,
não podemos bobear e diminuir a atenção para conosco e os próximos.
Na semana passada, excepcionalmente,
não nos comunicamos por meio de nossas cartas. O governo estadual paulista,
pela Secretaria de Educação, realizou uma pausa nas atividades virtuais. A
ideia era um “descanso” para todos nós, pois como vocês perceberam, essas
atividades ocupam muitas vezes a manhã, a tarde e a noite. Tanto dos
professores quanto dos alunos. Enfim...
Nos últimos meses, de uma forma mais
aberta, a mídia em geral vem falando muito sobre uma questão social que,
infelizmente, ainda é ferozmente opressora em nosso ambiente humano: o racismo
contra os negros. Tenho certeza que vocês já presenciaram ou até sofreram
diversos tipos de atos racistas.
Alguns números sobre o racismo no
Brasil são assombrosos e vergonhosos. De cada 5 brasileiros formados em
faculdades, apenas 1 é negro. Mais de 50% dos negros não tem acesso à internet.
Das pessoas que vivem em condições desumanas, mais de 70% delas são negras, ou
seja, não têm alimentação decente, nem agua e nem esgoto. E a cada 12 minutos
uma pessoa negra é assassinada no Brasil.
Assim, em uma conta funerária e
extremamente real, imaginem quando estamos em aula na escola. Normalmente,
temos duas aulas seguidas, que somam 90 minutos. Portanto, cada encontro
escolar que temos, 8 pessoas negras são executadas.
A sociedade civil, de certa maneira,
vem se organizando para combater o racismo contra os negros. Na cidade de
Assis, temos o instituto dos negros chamado Zimbauê. A organização tem diversas práticas e
atividades de combate ao racismo. Em escala mundial, temos acompanhado o
crescimento de um movimento contra o racismo que se chama “Vidas Negras
Importam”. Nosso dever, enquanto seres humanos, ultrapassa a questão de sermos
ou não sermos racistas. Devemos combater incondicionalmente o racismo.
Vocês têm reparado que, nos últimos
tempos, tenho falado com insistência sobre como funciona o cérebro e seu
desenvolvimento. Alguns de vocês já me perguntaram (e toda dúvida é legitima),
se o cérebro de um racista ou de alguém que pratica qualquer outro tipo de
discriminação contra os pobres, as mulheres, os homossexuais, os índios, é
diferente do cérebro de alguém que não é racista.
A resposta é um objetivo e sonoro
NÃO! O cérebro de um racista é exatamente igual ao seu, ao meu, ao de Jesus
Cristo, ao daqueeeeeele político que pesa negro por arroba e ao de qualquer um.
O racismo contra os negros é um problema social, que se fundamenta em uma
estrutura econômica e política que divide as pessoas em classes sociais (ricos
e pobres). Para uma classe (os ricos) continuar explorando a outra (os pobres)
é preciso dominar e humilhar a parte mais produtiva da classe explorada (os
negros).
A questão do racismo não pode estar
desvinculada da luta de classes, e como bem disseram os filósofos Karl Marx e
Friedrich Engels, a história de todas as sociedades existentes até hoje é a
história da luta de classes. Toda forma de racismo é uma receita para explorar
com mais crueldade uma parte produtiva da sociedade, no caso do racismo contra
os negros, essa parcela é os próprios negros.
Alguém pode se questionar, com uma
justificada insegurança, “Ah professor, então eu ou o senhor podemos ser
racistas?”. A isso digo que sim, com absoluta certeza, já tivemos muitas
atitudes racistas em nossos comportamentos. Contudo, queridos alunos, observem
a beleza dos cérebros dos racistas e dos que combatem o racismo serem iguais.
Na mesma proporção que podemos estar racistas, podemos não estarmos mais
racistas e, melhor ainda, podemos combater racismo.
Lembrem-se sempre de que o cérebro é
socialmente construído. Todos os seus processos, partes, neurônios e seu
desenvolvimento foram possíveis na relação dos seres humanos com o ambiente
social em que vivem. Dessa forma, os seus pensamentos também são socialmente
construídos, e assim, tanto o racismo como o combate ao racismo são formações
sociais. Quem enfrenta as injustiças sociais como a exploração e o racismo, de
modo consequente, condicionará a si mesmo e aos outros a também combaterem.
Por fim, deixarei pra vocês uma
reflexão realizada pelo médico brasileiro, Josué de Castro (1908 -1973) “Metade
da humanidade não come; e a outra metade não dorme, com medo da que não come”. Josué
foi um influente médico, nutrólogo, professor, geógrafo, cientista social, político, escritor e ativista brasileiro do combate à fome.
Destacou-se no cenário brasileiro e internacional não só pelos seus trabalhos
ecológicos sobre o problema da fome no mundo, mas também no plano político em
vários organismos internacionais. Infelizmente, por ter sido negro, foi
esquecido e não é reverenciado.
Como combater e acabar com o
racismo? Vocês acham que têm o cérebro igual ao de um racista? Vidas negras
importam?
Saudações
filosóficas.
Prof.
Ulisses.
Áudio disponível em:
https://drive.google.com/file/d/1hAGgQh7jgcvdB_DrWr3L5KnDShwb_zTi/view?usp=sharing

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