sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Assis, 01 de setembro de 2020.

 

                                Vidas negras importam. Fonte: site da Apeoesp.




Assis, 01 de setembro de 2020.

Queridos alunos.

            Vocês estão bem? Continuam se cuidando? E a família? E a casa? Nesses dias difíceis, em que a pandemia misturada com todos os nossos outros problemas sociais nos afetam diretamente, não podemos bobear e diminuir a atenção para conosco e os próximos.

            Na semana passada, excepcionalmente, não nos comunicamos por meio de nossas cartas. O governo estadual paulista, pela Secretaria de Educação, realizou uma pausa nas atividades virtuais. A ideia era um “descanso” para todos nós, pois como vocês perceberam, essas atividades ocupam muitas vezes a manhã, a tarde e a noite. Tanto dos professores quanto dos alunos. Enfim...

            Nos últimos meses, de uma forma mais aberta, a mídia em geral vem falando muito sobre uma questão social que, infelizmente, ainda é ferozmente opressora em nosso ambiente humano: o racismo contra os negros. Tenho certeza que vocês já presenciaram ou até sofreram diversos tipos de atos racistas.

            Alguns números sobre o racismo no Brasil são assombrosos e vergonhosos. De cada 5 brasileiros formados em faculdades, apenas 1 é negro. Mais de 50% dos negros não tem acesso à internet. Das pessoas que vivem em condições desumanas, mais de 70% delas são negras, ou seja, não têm alimentação decente, nem agua e nem esgoto. E a cada 12 minutos uma pessoa negra é assassinada no Brasil.

            Assim, em uma conta funerária e extremamente real, imaginem quando estamos em aula na escola. Normalmente, temos duas aulas seguidas, que somam 90 minutos. Portanto, cada encontro escolar que temos, 8 pessoas negras são executadas.

            A sociedade civil, de certa maneira, vem se organizando para combater o racismo contra os negros. Na cidade de Assis, temos o instituto dos negros chamado Zimbauê.  A organização tem diversas práticas e atividades de combate ao racismo. Em escala mundial, temos acompanhado o crescimento de um movimento contra o racismo que se chama “Vidas Negras Importam”. Nosso dever, enquanto seres humanos, ultrapassa a questão de sermos ou não sermos racistas. Devemos combater incondicionalmente o racismo.

            Vocês têm reparado que, nos últimos tempos, tenho falado com insistência sobre como funciona o cérebro e seu desenvolvimento. Alguns de vocês já me perguntaram (e toda dúvida é legitima), se o cérebro de um racista ou de alguém que pratica qualquer outro tipo de discriminação contra os pobres, as mulheres, os homossexuais, os índios, é diferente do cérebro de alguém que não é racista.

            A resposta é um objetivo e sonoro NÃO! O cérebro de um racista é exatamente igual ao seu, ao meu, ao de Jesus Cristo, ao daqueeeeeele político que pesa negro por arroba e ao de qualquer um. O racismo contra os negros é um problema social, que se fundamenta em uma estrutura econômica e política que divide as pessoas em classes sociais (ricos e pobres). Para uma classe (os ricos) continuar explorando a outra (os pobres) é preciso dominar e humilhar a parte mais produtiva da classe explorada (os negros).

            A questão do racismo não pode estar desvinculada da luta de classes, e como bem disseram os filósofos Karl Marx e Friedrich Engels, a história de todas as sociedades existentes até hoje é a história da luta de classes. Toda forma de racismo é uma receita para explorar com mais crueldade uma parte produtiva da sociedade, no caso do racismo contra os negros, essa parcela é os próprios negros.

            Alguém pode se questionar, com uma justificada insegurança, “Ah professor, então eu ou o senhor podemos ser racistas?”. A isso digo que sim, com absoluta certeza, já tivemos muitas atitudes racistas em nossos comportamentos. Contudo, queridos alunos, observem a beleza dos cérebros dos racistas e dos que combatem o racismo serem iguais. Na mesma proporção que podemos estar racistas, podemos não estarmos mais racistas e, melhor ainda, podemos combater racismo.

            Lembrem-se sempre de que o cérebro é socialmente construído. Todos os seus processos, partes, neurônios e seu desenvolvimento foram possíveis na relação dos seres humanos com o ambiente social em que vivem. Dessa forma, os seus pensamentos também são socialmente construídos, e assim, tanto o racismo como o combate ao racismo são formações sociais. Quem enfrenta as injustiças sociais como a exploração e o racismo, de modo consequente, condicionará a si mesmo e aos outros a também combaterem.

            Por fim, deixarei pra vocês uma reflexão realizada pelo médico brasileiro, Josué de Castro (1908 -1973) “Metade da humanidade não come; e a outra metade não dorme, com medo da que não come”. Josué foi um influente médiconutrólogo, professor, geógrafo, cientista social, político, escritor e ativista brasileiro do combate à fome. Destacou-se no cenário brasileiro e internacional não só pelos seus trabalhos ecológicos sobre o problema da fome no mundo, mas também no plano político em vários organismos internacionais. Infelizmente, por ter sido negro, foi esquecido e não é reverenciado.

            Como combater e acabar com o racismo? Vocês acham que têm o cérebro igual ao de um racista? Vidas negras importam?

 

Saudações filosóficas.

Prof. Ulisses.


Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1hAGgQh7jgcvdB_DrWr3L5KnDShwb_zTi/view?usp=sharing

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