Platão. Trecho da pintura "A Escola de Atenas" - Rafael Sanzio Fonte: Wikipédia.
Assis,
21 de agosto de 2020.
Queridos
alunos.
Vocês
estão bem? E as coisas como vão? A realidade é algo muito concreto e duro,
principalmente quando estamos lidando com nosso País que conta com mais de 110
mil mortos pela pandemia de COVID-19, mas temos que encarar inevitavelmente
essa situação.
Para
isso, faço questão de destacar, não se esqueçam de que temos que ter um
comportamento único e firme no que diz respeito ao retorno às aulas. Vamos
fazer uma campanha aberta de que não retornaremos e nem mandaremos nossos
filhos às escolas antes que se faça uma vacinação completa da população.
Voltar
pra escola sem vacina, como já temos diversas experiências de outras regiões e
países, é praticamente assinar o próprio atestado de óbito. Enquanto não houver
vacina, nossas atividades continuarão pela internet mesmo. Simples assim!
Tenho
analisado com muita satisfação os elogios e as críticas que muitos de vocês têm
feito sobre as nossas cartinhas. Eles são muito bem vindos, pois manifestam a
alta capacidade que sempre tiveram de se posicionar diante da realidade e das
ideias. Espero que se comuniquem mais e mais comigo.
Há
um aspecto das ideias de vocês que tem sido muito repetitivo e, por isso, digno
de que nós discutamos mais sobre ele. Em resumo, tenho escutado que as cartas
são boas porque faço uma defesa racional e emocional dos conteúdos que são
nelas trabalhados. Em diálogo com isso, opino que esse pensamento de vocês é
muito acertado e, sobretudo, filosófico. E se é filosófico... cabe um debate!
Mania de professor de Filosofia, né? Hehehe.
O
filósofo Platão, lá na antiguidade grega, já se preocupou com essa inevitável relação
entre razão e emoção no dia a dia das pessoas. Dizia que as almas das pessoas
se dividiam em partes: a parte racional, a emocional e a sensitiva.
A
sensitiva seria a responsável por alertar nosso corpo para as necessidades
físicas de sobrevivência. Frio, dor, fome e apetite sexual são seus principais
avisos. A parte emocional é aquela que nos informa para reagir de maneira ativa
sobre uma realidade. Um trabalhador ou um soldado tem que ter uma disposição
forte de espírito para atuar em seu trabalho. A parte racional é a que decide
como atuar de forma mais inteligente em qualquer situação da vida cotidiana.
Por isso, Platão afirma que os seres humanos devem serem governados pela razão,
colocando a emoção em segundo plano e as sensações em terceiro lugar. Emoções e
sentimentos devem ser anulados pela razão.
René
Descartes, por sua vez no século XVII, elabora diversos argumentos filosóficos
para falar sobre as relações entre razão e emoção. Afirmava que o corpo é o
lugar da emoção e o cérebro da razão. No frigir dos ovos, acaba por recuperar
tudo o que Platão já havia discutido há mais de 2000 anos. O corpo deve ser
suprimido pela razão.
O
médico António Damásio, na atualidade, retoma essa questão filosófica em termos
mais próximos de uma disciplina chamada neurociência, que estuda o
desenvolvimento de nosso cérebro em relação com as razões, as emoções, os
sentimentos e o meio social. Seus argumentos ainda são muito debatidos, muitas
pessoas concordam e outras discordam dele, mas é importante que nós o
conheçamos para poder formular nossas próprias conclusões.
Damásio
propõe que não tem como separar razão e emoção. Isso justamente porque o ser
humano vive em sociedade e os desenvolvimentos de suas capacidades são em
colaboração e não em repressão de uma pela outra. Ele define a diferença entre
emoção, sentimento e desenvolvimento cerebral. Vamos às suas ideias.
Segundo
as pesquisas de Damásio, a emoção é um arranjo cerebral que prepara o corpo
para a ação. Imagine que você está caminhando numa floresta e se depara frente
a frente com uma onça. No prazo de aproximadamente meio segundo, seu cérebro
desvia toda a circulação sanguínea de seu corpo para os músculos maiores. Vai
acelerar o batimento cardíaco para que o sangue chegue mais rapidamente a esses
músculos. Assim, faltará circulação sanguínea no intestino, se ele estiver
cheio, vai ficar vazio. Você se caga de medo!
Nessa
situação sua razão vai ter que tomar uma decisão que, de qualquer jeito,
envolverá o movimento dos músculos. Você começa a correr o mais rápido possível
ou você encara a onça no braço. A decisão tem que ser rápida pra você ter a
chance de escapar e levar em consideração a realidade dura e concreta. Você
consegue ganhar de uma onça na briga? Está com algum tipo de arma? Normalmente,
por favor meus amores, se ficarem nessa situação tentem correr fazendo a maior
gritaria possível.
O
sentimento já é diferente da emoção. O sentimento é uma emoção consciente, ou
seja, se trata de algo que você tem um controle limitado sobre ele. A emoção
não se controla, ela é uma reação de defesa de nosso corpo, e nem toda emoção é
um sentimento porque algumas emoções não são conscientes. Ela simplesmente liga
o sistema de defesa do organismo e você sente medo sem saber qual o motivo.
Isso gera ansiedade, dessa forma, fortunas gastas com remédios e anos e anos de
conversas com seu psicólogo.
Você
já sentiu aquele frio na barriga quando viu a pessoa amada? Ele é um
sentimento, pois se trata de uma emoção consciente despertada pelo contato
visual com o foco do seu amor. Seu cérebro diminui a circulação sanguínea do
estômago, aumenta o foco de sua atenção, dirige essa circulação de sangue aos
músculos com o objetivo de aproximar-se daquilo que ama. Esse frio na barriga é
fisicamente uma reação emocional à falta de circulação sanguínea no estômago.
Não
caiam na besteira de fazer bobagens e colocar a culpa no desenvolvimento
cerebral, porque desenvolvimento cerebral é social e evita a chance de patacoadas.
Se vir a pessoa amada não vai agarrando ela e se justificar em relações
cerebrais. Isso se chama assédio. Para não haver esses problemas sociais, usem
a parte racional do cérebro e dialoguem com as pessoas. Conversando a gente se
entende. Ou se desentende?
A
parte do cérebro responsável por lidar com as emoções chama-se sistema límbico.
É ela que possibilita todas essas coisas que percebemos quando estamos
emocionados. A parte que trabalha as razões, nossa capacidade de fazer
escolhas, é chamada de neocórtex. Damásio suspeita que essas duas partes se
relacionam e se desenvolvem conjuntamente, e por isso, discorda das afirmações de
Platão e de Descartes que defendiam a anulação consciente das emoções. Por isso,
um dos principais livros de Damásio foi batizado com o nome “O Erro de
Descartes”.
E
vocês concordam com Platão e Descartes que valorizam a razão e suprimem os
sentimentos e emoções? Ou concordam com Damásio que propõe um desenvolvimento
conjunto entre razão, emoção e sentimento? Ou conseguem apresentar uma proposta
diferente das que debatemos?
Saudações
filosóficas.
Prof. Ulisses.
Áudio disponível em:
https://drive.google.com/file/d/1lmmA4L31zRh8Eb6m01HV1IV6JhzvVHAC/view?usp=sharing

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