sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Assis, 2 de outubro de 2020.


 Título: A Clarividência (1936). Autor: René Magritte (1898 - 1967). Fonte: Pinterest.


Assis, 2 de outubro de 2020.

Queridos alunos.

Como passaram a semana? Muitos trabalhos da escola? A casa e a família estão bem? E a saúde? E o trabalho? Vamos nos esforçando para sobreviver à pandemia e pelo bem-estar de toda a comunidade. É o que tem para hoje.

Vamos conversar um pouco sobre profissões. Em toda minha trajetória como professor, sobretudo no Ensino Médio, percebo que a maioria de vocês tem dúvidas sobre qual profissão devem se esforçar para aprender em um curso, seja de ensino técnico ou universitário.

Evidentemente, e não vejo nenhum problema nisso, o grande critério de escolha sobre as profissões que a maioria adota é a questão da facilidade de se conseguir um emprego e um bom salário. Nossos desejos e escolhas são definidos pelas nossas necessidades materiais e, convenhamos, a de nós que somos trabalhadores humildes e filhos de gerações e gerações de trabalhadores pobres temos que nos esforçar e preocupar com isso sim.

Posso dividir por aqui como me tornei um professor de Filosofia. Quando tinha a idade de vocês, lá no final dos anos 1990, me deparei com o dilema de que profissão gostaria de seguir. Por também estar preocupado com a questão do emprego e do salário, primeiramente, pensei nas chamadas profissões liberais. Os cursos que consegui desejar foram os de medicina, direito e de contabilidade.

Fiz um curso técnico de contabilidade na popular escola industrial de Assis. Quando iniciei tinha quinze anos de idade e conclui com dezessete. Ali eu percebi que esse trabalho, embora na época poderia ser uma fonte de renda para mim, não iria ser algo que eu gostaria de desempenhar. Tinha certa facilidade com cálculos e matemática, mas percebi que não teria uma relação fácil com os meus chefes. E, acreditem, com a experiência e o estudo aprendi que em trabalho nenhum a lida com os patrões é harmoniosa, pois o interesse deles é oposto ao dos empregados.

No final de 1998, chegou o período de inscrições para o vestibular. Como havia concluído o curso técnico no meio desse ano, e já tinha decidido que procuraria estudar para trabalhar com outra coisa, havia ainda a possibilidade de procurar o ingresso nas faculdades de medicina e direito. O Brasil tinha passado pela reeleição de um presidente privatizador e lesa pátria chamado Fernando Henrique Cardoso, o qual eu não desejava que fosse reeleito, e eu sabia que os tempos continuariam difíceis.

Nesses tempos, com poucas esperanças para o futuro, desenvolvi algo chamado princípio de realidade (os psicólogos adoram isso). Compreendi que minhas condições financeiras me possibilitariam um curso público, não tinha dinheiro para os pagos, sou filho de um motorista de caminhão e de uma cozinheira. As faculdades de medicina e direito são praticamente impossíveis para os pobres, pois nossa formação na educação básica é precária no Brasil. Isso somente para quem não tem dinheiro e desde o início do universo a aproximadamente 14 bilhões de anos. Assim, para poder estudar sem pagar mensalidade, deveria ser um curso que a minha formação ruim me permitiria ir bem no vestibular.

Diante dessa realidade, pensei nos cursos que a Unesp de Assis tinha na época. Tinha bastante afinidade com psicologia, biologia e história. Desses cursos, exclui automaticamente psicologia e biologia, pois exigiam uma disponibilidade de tempo que não tinha, afinal de contas, precisava também trabalhar. História passou a ser uma possibilidade concreta, contudo, comecei a pensar sobre o curso de Filosofia da Unesp de Marília. Isso foi resultado de dois fatores: ele também é disponível sem mensalidades e tive contato com os pensamentos de alguns filósofos por meio das histórias que um familiar sempre me contava.

O Tio Cido, primeiro filósofo e livre pensador que eu conheci, é o irmão mais velho do meu pai. Ele sempre contava suas histórias. Era um grande leitor de bons livros e um ser humano muito acima da média, tanto como pessoa e também como estudioso. Ele trabalhou por dezenas de anos em gráficas, que são as empresas fabricantes de livros, fato de grande utilidade para conhecermos parte dos pensamentos e ideias dos grandes escritores e filósofos. Eu até hoje tento ter a sabedoria e o conhecimento do Tio Cido, como no tempo do vestibular tinha perdido as esperanças de ganhar muito dinheiro trabalhando, resolvi cursar a faculdade de Filosofia.

Na época não existia a obrigatoriedade da disciplina de Filosofia no Ensino Médio, por isso, o contato que tive com os pensamentos dos filósofos foi por meio desse primeiro filósofo que conheci. A possibilidade de ser professor no Ensino Médio era muito pequena, então, iniciei o curso pensando em ir trabalhando e me especializando também em outras áreas nas quais eu estivesse atuando. Quando terminei a faculdade, tive uma tristeza e uma alegria muito intensas. Meu pai havia tido um derrame cerebral muito grave, que o faz conviver com sequelas até hoje, e no início de 2005 a disciplina de Filosofia retornou ao currículo do ensino médio paulista. Dessa forma, bem no final da minha formação teórica em Filosofia, eu tinha um emprego por onde começar.

Fui contratado como professor e cá estou desde o dia 14 de fevereiro de 2005. No ano de 2007 passei no concurso o que me garantiu uma estabilidade na função de professor de educação básica, pelo menos até hoje, pois com esse governo estadual (João Doria) e federal (Jair Bolsonaro) que temos tão empenhados em destruir com o serviço público para a população, não sei até quando os serviços do Estado ficarão garantidos. Apenas tenho o conhecimento que sem a luta e a organização dos servidores públicos e a comunidade, nem a educação precária e deficitária que está por aí o povo terá acesso.

Percebam que o que fez de mim um professor de Filosofia são dois fatores muito decisivos na vida das pessoas. O primeiro e determinante fator foi o entendimento da minha condição financeira e material para continuar estudando. O segundo e formativo foram os contatos que tive durante a infância e a adolescência com os estudos.

Como já dizia Marx no livro Contribuição à Crítica de Economia Política: “O concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas determinações, isto é, unidade do diverso”. Em primeiro lugar, somos o que a realidade nos permite ser, secundariamente, desejamos e sonhamos aquilo que a realidade nos coloca como metas e objetivos no horizonte.

E vocês o que sonham e desejam como profissão? Suas realidades financeiras e materiais possibilitam os seus desejos? Tem como superar dificuldades financeiras para continuarem buscando o que desejam? Ou pensam em adaptar novos desejos às suas realidades materiais?

 

Saudações filosóficas.

Prof. Ulisses 

Áudio disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1j_eemwWBkp0-wMoBYtqLi3OXPFg8Yx0t/view?usp=sharing



Um comentário:

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